O Arranhão da Gata











Para ler ouvindo Nada Mais, de Gal Costa.

Essa é uma discussão que vai longe, bem além da mesa do bar, do divã do analista ou do ombro amigo. Traição é um assunto que sempre gera polêmica. Há quem diga que não há perdão pra esse tipo de atitude. Há quem perdoe sempre para manter o status ou o padrão de vida e há quem consiga perdoar se for só uma vez e não houver reincidência. Mas será mesmo?

Eu acredito que a base de um relacionamento é a confiança e uma vez que se quebre, fica difícil conquistá-la novamente. Nada nessa vida é eterno e ninguém, absolutamente ninguém mesmo, está livre de se apaixonar por outra pessoa. Só que aí vem a parte da lealdade. Uma coisa é ser infiel e outra, que considero bem pior, é ser desleal.

O erro às vezes começa com aquela pessoa que se sente dona da outra, o que desfavorece qualquer diálogo. De qualquer forma, um erro não justifica o outro. Ser livre não é deixar de assumir compromissos, mas sim ser leal consigo mesmo e com os outros.

Se você está num relacionamento, mas de repente se apaixona por alguém é preciso ter coragem, muita coragem. Primeiro para admitir isso pra si mesmo. Depois para avaliar se vai em frente nesse novo amor ou se vai sublimar esse sentimento por causa de um outro maior.  A pior atitude é levar uma vida dupla eternamente. Em algum momento a coragem de se decidir se faz necessária. E se você se apaixonou por alguém que já era comprometido, não deixe isso se arrastar. Faz parte do amor tomar decisões para seguir em frente.

Conheci uma vez uma mulher casada que me disse que tinha um caso há oito anos. Como assim? Um caso não pode durar todo esse tempo. Isso já é uma vida dupla. Ela me explicou que o amante era seu lado B, que com ele fazia coisas que nunca faria com o marido, mas que se sentia feliz com os dois e não era possível largar nenhum deles. Aí eu me questiono: se sou muito careta ou as pessoas são loucas mesmo?

Nessa minha vida de boa ouvinte, sempre atraio quem queira me contar suas histórias (até as que eu preferia não saber). Tem aquele que trai por hábito. Já ouvi gente dizer que não nasceu pra relacionamentos monogâmicos, que não conseguia ficar com uma pessoa e deixar passar outras possibilidades.

Até acho válido, desde que a outra parte seja comunicada. Se você não serve pra ficar com um único parceiro, por favor, não se case. Divirta-se e deixe isso claro para as pessoas com quem se relacionar.Vai ser bom pra todo mundo.

Os tipos de pessoas que traem são dos mais variados. Um bem comum é aquele que diz que ama, que não quer se separar, mas que precisa variar de parceiro sexual. Se a pessoa nunca se satisfaz sexualmente, talvez aí seja o caso de procurar ajuda especializada.

Tem também o traidor despreparado. Aquele que deixa pistas para ser descoberto, não apaga as mensagens do celular, nega evidências, deixa o email aberto. Esconder não é uma coisa bonita, mas esconder direito demonstra que pelo menos você se importa com o sofrimento do outro, que não quer que ele descubra dessa forma. Claro que isso vale pra quem pretende abrir o jogo em algum momento.

Eu sempre tive a ideia de que ter um amante era algo para ser bom, divertido, apenas com bons momentos, mas também já conheci gente que consegue no relacionamento extraconjugal ter uma vida pior que a que tem no casamento. Isso não faz muito sentido. A pessoa tem um amante, que por sua vez tem outras amantes e aí vira uma guerra de ciúmes, brigas, sofrimentos. Parece meio incoerente cobrar fidelidade nesse tipo de relação.

Mas existe coerência no amor? E você, perdoaria uma traição?

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{12/04/2010}   Síndrome de Dona Flor

Pela primeira vez ela tinha tomado o grande passo de procurar um terapeuta. Chegou ao consultório pensando se teria coragem de contar a ele coisas que nunca tinha contado a ninguém. Cheia de medos e dúvidas foi tentando se acalmar baseada no fato de que pelo menos não seria alguém que ao ouvi-la iria julgá-la por seus atos.

O terapeuta era jovem – o que deu uma certa segurança a ela – e a recebeu com um sorriso no rosto. Pronto. “Pelo menos era bem humorado”, pensou. Ela começou a contar a ele como nos últimos dois meses sua vida se transformara numa grande mistura de sentimentos contraditórios.

Justamente ela que era veemente contra as traições, que dizia que era impossível se relacionar com duas pessoas ao mesmo tempo, que afirmava que antes de sequer olhar para outra pessoa, só o interesse já era um sinal para se separar, se viu numa situação exatamente assim.

Após um beijo inesperado, um desejo enorme despertou dentro dela. Daí pra cama foi um passo rápido. O mais incompreensível para a cabeça dela era continuar a amar o marido como sempre. Nem cogitava a possibilidade de viver sem ele algum dia na vida. No entanto, gostava muito de estar com o outro.

O que a perturbava de verdade era o medo de ser descoberta já que não tinha lá muita vocação para mentir. Não haveria explicação, nem perdão. Alem disso, lhe atormentava o sentimento de culpa por não sentir tanta culpa em fazer aquilo, por achar que merecia viver aquela aventura por mais que fosse impossível explicar a qualquer pessoa.

Claro que houve uma segunda e uma terceira vez, cada uma melhor que a anterior. Viraria um vício? E se a paixão não passasse? E se seus sentimentos mudassem? Mil dúvidas, angústias e muito desejo à flor da pele.

Para seu alívio, o terapeuta não achou que ela precisasse de uma terapia contínua, apenas se auto-observar para que os sentimentos não evoluíssem para uma tristeza profunda, que a levassem a uma depressão. Embora não haja teorias científicas comprovadas, ela mesma classificou o seu caso como síndrome de Dona Flor.

Sim, era isso. O homem perfeito seria uma fusão dos dois. Ao mesmo tempo em que um não deixara de ser o amor da sua vida, admirável, amigo, amante e companheiro, o outro despertava desejos incontroláveis e era bom viver isso. Era bom lembrar do seu beijo, do seu toque, do seu cheiro. E era difícil resistir.

Ela saiu da sala do terapeuta feliz com a possibilidade de ainda estar com a situação sob controle. No entanto, sabia que a Dona Flor podia viver com os dois por ser um personagem de um livro de Jorge Amado e porque um dos dois maridos naquele caso era apenas espírito. Já ela teria que ter forças e colocar um freio em sua aventura mais dia, menos dia, antes que fosse tarde, muito tarde.



et cetera