O Arranhão da Gata











{29/02/2012}   A garota do metrô

Para ler ouvindo Don’t Cry, do Guns N’ Roses.

Era um dia de sol. Os raios batiam na janela do metrô por volta do meio-dia. No banco do lado sentou-se uma garota bem jovem. Deduzi que ela tinha uns 15 ou 16 anos por conta dos livros de ensino médio que carregava. Suas unhas lindas, bem cuidadas e com esmalte decorado chamaram a minha atenção (quem me conhece, sabe que sou louca por esmaltes). Tinha um cabelão preto e comprido, comum nas mulheres dessa idade.

Pensei em puxar papo por conta das unhas e perguntar qual era a cor do esmalte. Afinal eu sou uma menina perguntadeira e queria mesmo saber. Mas antes que eu perguntasse, reparei que o cabelão estava na cara e, embora isso seja uma mania nessa idade, percebi que a garota chorava. Daquele jeito que a gente chora nos transportes públicos, de fone no ouvido, sem fazer alarde, fazendo de conta que a culpa é da música.

Comecei a pensar qual seria o motivo para uma garota jovem, bonita e com toda a vida pela frente estar tão triste. Ainda mais num lindo dia de sol. Isso é coisa minha. Tristeza pra mim só combina com dias cinzentos, frios e chuvosos. Será que ela tinha brigado com o namorado? Será que tinham terminado? Mas também a gente tem essa mania de achar que se uma mulher está chorando só pode ser por causa de um homem. Nem sempre é verdade.

Ela poderia ter um parente próximo ou um amigo no hospital. Poderia ter tirado uma nota ruim que comprometesse sua bolsa de estudos. Poderia não ter conseguido aquele estágio. Poderia ter sido traída pela melhor amiga. Poderia estar apaixonada por outra garota e se questionando sobre isso. Enfim, mil possibilidades.

Eu não consegui perguntar antes que ela chegasse ao seu destino. Enxugou as lágrimas, juntou os livros e desceu. Me deixou com aquela cara de desapontamento. Ah, eu queria tanto saber. Quem sabe poderia ajudar.

A imagem daquela garota me fez lembrar de mim mesma naquela idade e de como os problemas são intensos nessa época. As lágrimas da minha adolescência dariam para inundar São Paulo. A gente sempre acha que aquele é o amor da vida, o emprego da vida, a turma da vida e qualquer mudança nesse cenário causa sofrimento. E não adianta ninguém dizer que vai passar, que você ainda vai amar outras pessoas, ter outros amigos. Tudo parece muito definitivo. Ainda bem que não era.

Não sei se as adolescentes de hoje são assim. Afinal, a vida, os amores e os amigos passaram a ser muito mais virtuais que reais. Coisas do mundo moderno. Mas acredito que as dores ainda sejam intensas para alguns. Vai ver as lágrimas daquela garota do metrô eram por conta de um “unfollow” nas redes sociais.

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{24/07/2011}   Adeus, Amy!

Para ler ouvindo Tears Dry On Their Own, de Amy Winehouse.

Ontem fui surpreendida pela morte da cantora inglesa Amy Winehouse, da qual sou super fã. Embora fosse uma morte anunciada por conta de seus abusos de álcool e drogas, eu me surpreendi porque sou daquelas pessoas que acreditam que tudo pode melhorar sempre. Sinto muito mesmo que o vício tenha vencido um talento tão grandioso para compor e uma voz de diva.

Quando a gente começa a envelhecer tem o hábito de ser saudosista, ouvir sempre as músicas que foram nossos hinos da juventude e se fechar um pouco para as novidades. Eu tento vencer isso e estar aberta para conhecer o que há de novo.

Foi assim que ouvi Amy pela primeira vez e quando ouvi nem imaginei que ela fosse tão jovem. Comecei a pesquisar mais e incrivelmente a gostar de tudo. Passou a ser a trilha sonora do meu celular no trajeto para o trabalho e coincidiu com uma época de angústias e incertezas. Amy foi minha companheira nesse momento difícil. Suas letras retratavam profundos sentimentos e eu admiro quem consegue colocar os sentimentos em músicas, quadros, poesias ao invés de apenas lamentar.

A maioria das pessoas acredita que porque uma pessoa tenta sempre estar de bem com a vida e disposta a ajudar todo mundo e a ouvir, nunca tem problemas ou sofrimentos. Quem vê de fora acha que basta que você tenha um lugar para morar, um amor correspondido, certa saúde e um salário que venha todo mês (não estou dizendo que tudo isso seja pouco) para não ter motivos nenhum para sofrer. Eu sei que muita gente que me conhece nem percebeu essa fase de angústias, tristezas e insatisfação com aquilo que você não pode mudar ou não tem o controle.

Tem gente que vive assim com esse sentimento o tempo todo ao longo da vida e recorre aos vícios para suportá-los. Talvez esse tenha sido o caso de Amy. Por que não? Longe de mim defender o uso das drogas, mas consigo entender a profunda solidão interior que pode levar alguém a esse caminho. Eu sou a pessoa mais careta que eu mesma conheço. Mas tudo isso me faz pensar também que o álcool é uma droga liberada, acessível, que causa tanto mal ou mais que outras e me parece que pouca gente se preocupa com o seu abuso, principalmente quando se é bem jovem.

Mas, como já disse antes, quando a gente começa a envelhecer também aparece a consciência de que não vamos curar as dores do mundo. Aqui quero deixar minha homenagem para uma artista talentosa, que perdeu a batalha para o vício e que morreu cedo demais, aos 27 anos, sem julgar seus atos. Desejo que ela esteja bem melhor agora e que encontre a paz que por aqui não teve. Adeus, Amy! Suas músicas maravilhosas continuarão presentes na trilha sonora da minha vida.



et cetera