O Arranhão da Gata











{24/07/2011}   Adeus, Amy!

Para ler ouvindo Tears Dry On Their Own, de Amy Winehouse.

Ontem fui surpreendida pela morte da cantora inglesa Amy Winehouse, da qual sou super fã. Embora fosse uma morte anunciada por conta de seus abusos de álcool e drogas, eu me surpreendi porque sou daquelas pessoas que acreditam que tudo pode melhorar sempre. Sinto muito mesmo que o vício tenha vencido um talento tão grandioso para compor e uma voz de diva.

Quando a gente começa a envelhecer tem o hábito de ser saudosista, ouvir sempre as músicas que foram nossos hinos da juventude e se fechar um pouco para as novidades. Eu tento vencer isso e estar aberta para conhecer o que há de novo.

Foi assim que ouvi Amy pela primeira vez e quando ouvi nem imaginei que ela fosse tão jovem. Comecei a pesquisar mais e incrivelmente a gostar de tudo. Passou a ser a trilha sonora do meu celular no trajeto para o trabalho e coincidiu com uma época de angústias e incertezas. Amy foi minha companheira nesse momento difícil. Suas letras retratavam profundos sentimentos e eu admiro quem consegue colocar os sentimentos em músicas, quadros, poesias ao invés de apenas lamentar.

A maioria das pessoas acredita que porque uma pessoa tenta sempre estar de bem com a vida e disposta a ajudar todo mundo e a ouvir, nunca tem problemas ou sofrimentos. Quem vê de fora acha que basta que você tenha um lugar para morar, um amor correspondido, certa saúde e um salário que venha todo mês (não estou dizendo que tudo isso seja pouco) para não ter motivos nenhum para sofrer. Eu sei que muita gente que me conhece nem percebeu essa fase de angústias, tristezas e insatisfação com aquilo que você não pode mudar ou não tem o controle.

Tem gente que vive assim com esse sentimento o tempo todo ao longo da vida e recorre aos vícios para suportá-los. Talvez esse tenha sido o caso de Amy. Por que não? Longe de mim defender o uso das drogas, mas consigo entender a profunda solidão interior que pode levar alguém a esse caminho. Eu sou a pessoa mais careta que eu mesma conheço. Mas tudo isso me faz pensar também que o álcool é uma droga liberada, acessível, que causa tanto mal ou mais que outras e me parece que pouca gente se preocupa com o seu abuso, principalmente quando se é bem jovem.

Mas, como já disse antes, quando a gente começa a envelhecer também aparece a consciência de que não vamos curar as dores do mundo. Aqui quero deixar minha homenagem para uma artista talentosa, que perdeu a batalha para o vício e que morreu cedo demais, aos 27 anos, sem julgar seus atos. Desejo que ela esteja bem melhor agora e que encontre a paz que por aqui não teve. Adeus, Amy! Suas músicas maravilhosas continuarão presentes na trilha sonora da minha vida.

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{05/07/2011}   Amor clandestino

Para ler ouvindo Part Time Lover, de Stevie Wonder.

Amor clandestinoEm alguns dias ela não se perdoava por trair o marido. Em outros ela se sentia viva e feliz por viver aquele amor clandestino. Ele também era casado, mas não era do tipo que sentia culpa por trair a mulher. Fazia parte daquele grupo de homens que não nasceu para ser de uma mulher só. Uma amiga sempre dizia a ele que se tinha consciência disso, nunca deveria ter se casado, e muito menos mais de uma vez. Mas ele alegava que as coisas iam acontecendo e ele era do tipo que deixava sair do controle.

A verdade é que entre esses dois havia a sintonia perfeita. Quando estavam juntos não importava o mundo lá fora, seus pares oficiais, as convenções monogâmicas da sociedade. Só importava aquela possibilidade de ficarem juntos, mesmo que por pouco tempo, mesmo que escondido, o que inclusive tornava a relação ainda mais excitante. Tinham um pacto de segredo e respeitavam até certo ponto. Ele talvez nunca tenha contado mesmo a ninguém. Ela só havia contado a uma amiga.

Nessa relação não havia a expectativa de que se separassem para ficarem juntos. Se isso acontecesse, não daria certo. O que funcionava pra eles era justamente o amor proibido. Ela contava os dias para que o encontro fosse possível. Ele se arriscava mais. Aparecia de surpresa. Mandava mensagens picantes quando a saudade batia.

Na cama era perfeito. Com ele era possível se sentir mulher de verdade, despudorada e se entregar de uma forma que nunca havia feito com ninguém. Ela também era perfeita para ele porque sempre satisfazia suas vontades e embarcava nas suas fantasias loucas. Ele sabia dar prazer a ela e se sentia muito realizado por isso. Não era um homem egoísta preocupado só com o seu próprio prazer. Essa cumplicidade só tinham um com o outro e sabiam que era única.

Ela perdia a cabeça quando ele ligava com alguma proposta, quando queria saber que lingerie estava usando, que precisava dizer que o vinho já estava gelando, que havia comprado um “brinquedinho” novo e que precisava saber se ela o desejava tanto quanto ele a ela. É claro que sim.

Mas se alguém acha que era só sexo, não era. Eles realmente se amavam loucamente. Tão loucamente que era impossível terem um relacionamento tradicional. Tinham afinidades sobre o modo de pensar a vida e sobre o que queriam pro futuro.

Mas por que não chutavam tudo por alto e ficavam juntos? Nem eles mesmos conseguiam responder. Provavelmente porque não conseguiriam sair do papel de amantes perfeitos para o de casal mais ou menos ou medíocre e assim levaram a vida por muitos anos e com a sorte de ninguém descobrir.

Um dia acabou, mas não porque não se amavam mais e sim porque o destino os afastou. A separação foi física, mas no coração e na alma sempre levaram um ao outro como o amor mais perfeito que viveram. Sofreram com a distância, mas sabiam que era por um bem maior e que um ciclo havia se encerrado. Felizes os que entendem isso e guardam o que ficou de bom sem se lamentar.

O amor não tem regras, nem receitas. O que funciona pra um casal, não necessariamente funciona pra outro e convenções não valem mesmo para uma boa história de amor. Mesmo sendo clandestino ou errado aos olhos dos outros, o importante é viver de verdade tudo que a vida puder nos oferecer. Pena mesmo é desperdiçar energia pensando no que poderia ter sido por medo de enfrentar os próprios sentimentos.

E você, já viveu um amor clandestino ou proibido?  Quer me contar a sua história?



{27/08/2010}   Ciúme, erva daninha

Para ler ouvindo Mais uma Vez, do Jota Quest.

Eu sei que Dom Casmurro, de Machado de Assis, é um clássico e que mesmo quem não o leu, sabe do que se trata. Eu confesso que li com muita má vontade às vésperas do vestibular.  É um pecado, eu sei, mas quem já passou por um vestibular aos 17 ou 18 anos, sabe do que eu estou falando. Eu li sobre o livro e sobre o autor em vários lugares. Eu vi na televisão as obras inspiradas na história, mas ler mesmo, do começo ao fim e com empolgação, só na última semana.

Tudo começou quando eu fiz a carteirinha da biblioteca do metrô, tentando colocar em prática o meu projeto de ler mais, mas ao mesmo tempo parar de comprar tantos livros. Pelo que estava escrito no regulamento, a carteirinha ficava pronta em 5 dias, mas para minha surpresa, ficou pronta na mesma hora. A atendente toda feliz me disse: “você pode levar um livro agora mesmo”!. Lá estava um Dom Casmurro novinho e resolvi levá-lo sem a certeza de que iria mesmo relê-lo no prazo de dez dias.

Bom, eu me surpreendi comigo mesma. Não só li no prazo como me apaixonei de novo por Machado. Todo mundo que tem prazer em escrever sente uma pontinha de inveja quando lê algo tão bem escrito. É inevitável pensar em como eu gostaria de escrever daquela forma.

O livro não desvenda o mistério da suposta traição de Capitu e deixa com o leitor a dúvida. Que tire suas conclusões. Muitos acham que tem na narrativa  todos os indícios de que ela traiu Bentinho (embora o texto seja narrado pelo suposto traído) e outros, como eu, acham que foi tudo invenção de uma mente doentia e ciumenta. Mente essa que destruiu um amor tão bonito, um amor da vida toda. É o tipo de discussão que não termina porque quem tem suas convicções não vai mudar de ideia. Eu sei.

Reler Dom Casmurro me levou a duas reflexões. Uma sobre como escrever é mesmo uma arte, um dom e que é preciso aprimorá-lo sempre. Não é mesmo à toa que Machado de Assis é considerado um gênio da nossa literatura. Se você ainda não leu nada dele, sempre é tempo. Não adie mais.

A outra reflexão é sobre como esse sentimento, o ciúme, praticamente uma erva daninha, pode mesmo estragar tudo, principalmente para aqueles que se deixam levar pelas criações da sua própria mente e começam a acreditar nelas como verdadeiras. Já vi mais de uma história de amor terminar assim. Uma pena mesmo.

E mesmo que você tente convencer a pessoa de que ela está errada, que está crucificando um inocente com desconfianças infundadas, ela não te ouve. O ciúme cega mais que qualquer paixão. A pessoa acredita tanto, que depois quando tudo acaba – afinal a outra parte uma hora se cansa de ser acusada injustamente –  sai dizendo por aí que esse foi o motivo, que foi traída, que havia uma terceira pessoa.

Eu não vou aqui dizer que é possível não sentir ciúmes. Todos sentimos e nem faz tão mal sem exageros. O que faz mal é criar motivos e transformar isso em algo maior que o próprio amor. O bom senso, o respeito e a confiança são ingredientes primordiais para qualquer tipo de relação. É preciso reconhecer o limite da individualidade e admitir que se você não é capaz de confiar no outro, então não existe amor. Quem ama, liberta. Um pássaro livre sempre volta pra onde se sente seguro.



{06/03/2010}   Olá, mundo!

O Arranhão da Gata surgiu da ideia de falar sobre relacionamentos. Não apenas o relacionamento entre casais, mas também entre amigos, pais e filhos, irmãos. Sempre fui uma espécie de consultora sentimental e isso me rendeu boas histórias que vou compartilhar aqui em formato de contos. Antes que os meus amigos e amigas se desesperem, não citarei nomes. Fiquem tranquilos!

Aqui também quero compartilhar pensamentos do cotidiano sobre todo tipo de sentimento. A linha tênue que separa as emoções boas das más é como o arranhão de uma gata, quase imperceptível e fino, mas que na maioria das vezes dói bastante. Um bom remédio para essas dores é compartilhar, descobrir outras pessoas que sentem o mesmo e trocar experiências. Afinal, como diz aquela música dos Beatles: “All you need is love, love is all you need”.

Bem-vindos!




et cetera