O Arranhão da Gata











{03/05/2010}   Two Hours

Eles só tinham duas horas pra matar as saudades. Eram só duas horas e tinha de ser naquele dia. Não dava pra prever outra oportunidade. O desejo falava mais alto, mas não dava para negar que também havia afeto, carinho, alguma forma de amor, mesmo que não convencional. Os olhos dela demonstravam isso.

Ele hesitou em aceitar o convite, mas cedeu. Caminharam rapidamente, subiram as escadas e entraram no quarto. Ali dentro eram só os dois. Nada do mundo lá fora. Finalmente os lábios se encontraram num beijo cheio de vontade, seguido de um abraço apertado e de mãos percorrendo os corpos um do outro. Ela estava perdida. Ele sabia como tocá-la, sem dúvidas e nada precisava ser dito.

Naquelas duas horas o tempo voou como é de costume quando se está apaixonado. Na cama era espetacular. Qualquer pessoa sabe quando a outra é perfeita nesse quesito. Sabe quando combina. Mas não era só isso. Não pra ela pelo menos. Eles tinham muito a falar um pro outro. Havia afinidade e um carinho muito grande. Só que ele não assumia o relacionamento. Dizia que não queria nada sério com ninguém e que estava bom assim.

Talvez pra ele fosse só uma paixão casual, mas isso ele também não admitia. Era como se precisasse tê-la à disposição. Poucos pessoas são capazes de admitir que não querem namorar, mas querem deixar a outra num tipo de stand by. Ali disponível para um momento de carência.

A parte mais triste é a falta de sintonia nessa situação. Ele estava confortável, mas ela queria mais. Ela acreditava que com o tempo ele ia ter certeza que ela era perfeita pra ele. Naquelas duas horas ela não pensava nisso. Só queria aproveitar ao máximo aquele momento de prazer. Mas sabia que quando saísse dali bateria a solidão. O que o impedia de ficar com ela por completo? Ela não sabia.

Assim o tempo passou. Os espaços entre os encontros ficaram maiores e um dia ela soube por uma amiga em comum que ele estava namorando sério. Aquele blá blá blá de não querer compromisso era só com ela. Sofreu mais pela falta de consideração pelos sentimentos dela que pela ausência dele, que de algum modo já havia se acostumado. Sobreviveu, mas não esqueceu. Principalmente daqueles encontros rápidos, mas perfeitos. De qualquer forma, era bom lembrar.

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{01/04/2010}   Mais uma vez

Pouco mais de um ano havia se passado desde a última vez que tinham ficado juntos. Foi naquela época que decidiram – meio que ao mesmo tempo e sem combinar – que aquilo estava ficando perigoso. Mantinham a amizade de uma forma natural: se telefonavam, se viam esporadicamente, conversavam, pediam ajuda um ao outro e assim seguia a vida.

Ela pensava muito nele e se esforçava para que aquele sentimento fosse apenas fraterno, mas inevitavelmente pensava nele um pouco mais do que se pensa em um amigo. Em alguns dias doía na alma, em outros era apenas uma lembrança boa. Ambos iam tocando a vida com suas dores e prazeres pessoais.

Foi num desses encontros casuais que voltaram a se envolver. Papo vai, papo vem, e ele ofereceu uma bala. Ela aceitou. Mas a bala que ele ofereceu estava na boca e ele a passou pra ela como fazem os namoradinhos adolescentes num quase beijo. Ela sentiu o rosto queimar. O coração bateu forte, as mãos suaram e ela pensou “ai, meu Deus, de novo isso!”.

Naquele dia ele estava especialmente sensual. Usava um cavanhaque de enlouquecer qualquer mulher (pelo menos as que gostam de cavanhaque!), tinha um perfume bom e aquele olhar sedutor de sempre. Ela usava um decote que deixava parte dos seios  à mostra.  Seios maravilhosos, como ele costumava dizer. Talvez fosse um dia de conspiração universal para o sexo, quem sabe. Ficaram ali conversando, bebendo uma cerveja e seduzindo um ao outro com palavras e olhares.

Na saída, ela hesitou, mas aceitou a carona. Pararam numa rua de pouco movimento, de novo como adolescentes que fogem para um amasso no carro. No banco de trás, ele a puxou para um beijo. O velho e bom beijo que ela já conhecia, mas que ainda a deixava de pernas bambas. Ela se perguntava “por que ele ainda mexe tanto comigo?” enquanto sentia suas mãos firmes a puxando pra si, segurando seus cabelos com força e deslizando a língua pelo seu pescoço. Delícia!

Era quase pra explodir de desejo, mas não iam transar no carro ali no meio da rua. Aí já seria inconsequência demais pra dois adultos, mas naquele dia não dava pra adiar outros compromissos e ir pra outro lugar. Lá fora chovia pra completar o cenário que mistura amor proibido e um pouco de tristeza, além do desejo incontrolável. Trocaram alguns beijos e amassos. Ele sugeriu um novo encontro na semana seguinte, num lugar onde poderiam matar as saudades por completo. Ficou no ar. Hora de ir embora.

Ela saiu caminhando pela chuva como se a chuva pudesse esfriar a mente, o corpo e a alma. Ainda sentia o gosto do beijo dele e o sabor da dúvida se aquele teria sido o último, se um novo encontro aconteceria e até onde isso os levaria. Dúvidas à parte, como era bom ter aquela sensação mesmo correndo o risco de se machucar mais uma vez.



et cetera