O Arranhão da Gata











{23/04/2011}   Reencontro de Páscoa

Para ler ouvindo “Os Outros”, do Kid Abelha.

Aquela era só mais uma Páscoa sozinha. Faltava só uma semana e ela pensava que não ter um amor era sempre ruim, mas nessas datas pesava ainda mais. Todos os amigos diziam que ela precisava sair, passear, ter mais amigos, conhecer gente nova e assim não se sentiria tão só. Ela até que tentava, mas sabia dentro de si que o pior não era não ter um novo amor, mas sim ainda não ter se esquecido dele.

Ele havia sido o grande amor da sua vida, mas não tinha dado certo poque eram imaturos e jovens. Ela era possessiva e ciumenta. Ele era daqueles que queria aproveitar a juventude. A combinação era explosiva. Já fazia mais de dez anos que não se viam. Ela tinha namorado outros, mas nunca se esquecia dele e talvez por isso nada de mais sério fosse pra frente.

Naquele dia havia ido comprar os ovos de Páscoa das sobrinhas. Era bom pensar nas crianças porque elas garantiam seus momentos de felicidade. A vida valia a pena quando estava com as pequenas. Andando pelo supermercado lotado sentiu o perfume dele e pensou que estava louca, imaginando coisas.

Mas não estava. Lá estava ele, também escolhendo chocolates, lindo, moreno e perfumado, como sempre. Suas pernas tremeram e o primeiro pensamento foi sair dali correndo, mas era tarde demais. Ele a viu, abriu aquele sorriso que ela nunca havia esquecido e caminhou em direção a ela. Se cumprimentaram com um longo abraço e palavras de “poxa, quanto tempo!’. Era como se todas as pessoas tivessem sumido do supermercado e só tivessem sobrado os dois ali parados.

Ele havia morado na Europa para estudar e estava de volta ao Brasil. Contou várias coisas, mas ela não ouvia nada preocupada com a possibilidade dele ouvir o quanto o coração dela batia alto. Trocaram celulares, msn, essas modernidades que não havia no tempo que namoravam. Antes de se despedir, ele perguntou se os ovos eram para os filhos e ela respondeu que não havia se casado. Ele disse que também não.

Aquela semana se arrastou. Ela não dormiu nenhuma noite, mas também não quis ser a primeira a ligar. O feriado chegou e logo cedo chegou a mensagem no celular “vamos fazer valer o nome sexta-feira da paixão?”. Ela pensou que era uma heresia confundir o significado da paixão naquele dia, mas claro que topou.

Ele foi buscá-la. Estava de bermuda jeans, camiseta branca, sorriso aberto e o perfume inesquecível. Lindo, como sempre. Ela perguntou pra onde iriam, mas ele não respondeu. Era surpresa. Ele havia reservado a suíte de um hotel em São Paulo mesmo. Afinal todos tinham viajado no feriado e cidade estava tranquila.

Passaram uma linda tarde juntos. O desejo era o mesmo. Nada havia mudado depois de tanto tempo. Como isso era possível? Ela ainda se sentia uma garota de 15 anos nos braços do primeiro amor. Com ele, ela se sentia mulher de verdade. Nenhum beijo havia substituído o dele. Era perfeito.

Ele perguntou se ela podia ficar até domingo com ele. Ela disse que sim, mas precisava estar no almoço de Páscoa com os pais e as sobrinhas. Não saíram do quarto até o domingo. Conversaram muito. Contaram a vida. E se amaram com toda a saudade reprimida por dez anos.

Na hora de se despedir, ela lamentou que não tivessem construído uma vida juntos. Ele não. Acreditava que nada era por acaso e que tudo tinha o momento certo. E aquele era o momento certo.Desde aquela Páscoa nunca mais ela passou nenhuma data especial sozinha. Não se separaram nunca mais e provaram que o tempo pode tudo curar e nos surpreender sempre.

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Para ler ouvindo Exagerado, do Cazuza.

Era uma linda história de amor. Não teve um final feliz, mas era pra ser uma linda história de amor. Ou, melhor, simplesmente não teve um final. Ela foi interrompida pelo destino ou por aquela velha premissa de amar sem ser amado. Parecia novela do Manoel Carlos. De repente, aquele seu primeiro amor resolve se apaixonar pela sua melhor amiga. Isso não seria o pior se a sua amiga não resolvesse achar que era uma boa ideia.

Bom, mas isso era o final e não o começo. O começo sim é o que interessa. Foi numa festinha bem comum nos anos 80. Todo mundo reunido na casa de um amigo, música na vitrola – sim, era vitrola – e nem precisava ter muita comida ou bebida. O importante era estar junto pra dançar. Apenas isso realmente era diversão naquela época.

Ela tinha uns 14 anos. Ele também. Ela estava naquela escola desde criancinha. Ele tinha acabado de entrar.  Ela só tinha trocado um beijo “de selinho”. Ele já havia aprendido a beijar com toda certeza. Foi naquele dia, na “seleção de músicas lentas” – sim, nas festas havia um momento só pra dançar juntinho e isso era legal –  que ela o notou pela primeira vez.

Talvez por ser novo e querer se enturmar ou simplesmente por nenhum motivo, ele a tirou pra dançar. E foi ali, naquele momento, que a mágica aconteceu. Ela sentiu o rosto dele no seu, o perfume dele e um calor próprio da idade e do medo do novo. Nunca havia sentido aquilo antes. Não foi naquele dia que eles se beijaram, mas ela se apaixonou e ele passou a ser um bom motivo pra não faltar à escola, nem mesmo se ficasse doente.

Ela era romântica por natureza e decidiu se declarar com uma cartinha. Pode parecer ridículo, mas naquele momento fazia sentido. Ele era um garoto. Garotos não pensam nisso tão cedo. Apenas achou legal. O primeiro beijo aconteceu uns três meses depois daquela dança na festinha. Foi no cinema num sábado frio de junho.

Ela queria namorar, dizer pra todo mundo. Ele não. Mas a história não acabou ali porque ela ainda não sabia terminar alguma coisa antes mesmo de ter começado direito. Embora ele não quisesse um compromisso, praticamente ficavam juntos  todo sábado. Era um tipo de ficante fixo, como se diz atualmente. 

O impulso da adolescência é aliado da total inconsequencia. Namoravam na escada do prédio dela ou na casa dele quando os pais não estavam. Não precisou de muito tempo para que a intimidade crescesse entre eles. Típico da idade. Estavam se descobrindo como homem e mulher. Eram os primeiros toques, as primeiras sensações de prazer. E ela o amava com toda a intensidade que um adolescente ama.

Mas como quase todas as meninas da sua geração, ela tinha medo de transar, de engravidar, de todo mundo saber e, afinal de contas, ele nem era seu namorado oficial. Durante dois anos o relacionamento foi assim. Ela sonhando com ele, com o momento certo para transar, desejando que ele a quisesse pra ele e também quisesse ser só dela.

Finalmente ela decidiu que ia transar com ele porque mesmo que não ficassem juntos depois, aquele amor todo que ela sentia merecia ser completo. Ela estava pronta, mas foi nesse momento que veio a bomba: ele resolveu se declarar apaixonado para a melhor amiga dela. Como assim?

A amiga a criticava sempre por ter aquele tipo de relacionamento, mas, para grande surpresa de todo mundo, quis ficar com ele. Talvez por gostar da ideia de ser desejada por todos, talvez por não se importar com a amiga, talvez pra se divertir ou para massagear o ego, talvez para mais tarde realmente acabar gostando dele.

Como tudo é mesmo muito desenfreado na adolescência, ela derramou muitas lágrimas. Sofreu, mas aceitou os fatos. Talvez para não perder a amiga, talvez para continuar perto dele, talvez porque não sabia ainda cortar relações que mereciam ser cortadas.

Esquecer não foi fácil. Mesmo já tendo namorado outro e transado sem o glamour do primeiro amor, ela ainda sentia saudades daquela história. Os dois tinham relacionamentos do tipo ioiô – aqueles que ficam num vai e volta sem fim. Foi em um desses intervalos em que estavam sozinhos que se reencontraram. Combinaram um jantar para relembrar os velhos tempos.

Naquele dia conversaram, choraram juntos, resgataram a intimidade e finalmente tiveram uma noite de amor. Talvez tenha sido boa a sensação de realizar algo tão esperado, mas ela sabia que aquele era mesmo o ponto final.

Ela nunca contou a ninguém. Havia enfim aprendido que guardar segredos, principalmente sobre si mesma, era fundamental no mundo dos adultos. Levou alguns meses se lembrando daquela noite,  sentindo seu perfume, rememorando suas palavras, mas um dia passou.

Nunca mais tocaram no assunto. Ele voltou para a namorada, se casou, teve filhos, se separou, voltou, se separou de novo… Enfim, viveu suas histórias de amor.  Ela também viveu outras histórias. Amou e foi amada. E a vida seguiu,  assim como devia ser.



et cetera