O Arranhão da Gata











{01/09/2011}   Um quase amor

Para ler ouvindo Gimme Gimme Gimme, de Narada Michael Walden & Patti Austin ‘1985.

Quando ele veio morar na rua da casa dela devia ter uns 15 anos e já chegou chamando atenção. Ela, aos 13 anos, ainda estava acostumada a ver os meninos meio que como inimigos, mas com ele foi diferente. Talvez tenha sido o seu primeiro amigo do sexo oposto. Ele era comunicativo, o amigo de todo mundo, inclusive das meninas. E, além de tudo, era bonito: moreno, olhos negros e sorriso largo.

Não demorou muito para que todas as meninas da rua se apaixonassem por ele. Ela não sabia se aquilo era paixão, achava que não, mas gostava de estar na companhia dele. Ele começou a namorar uma garota da rua, que era um pouco mais velha. Ela não se incomodou muito com isso porque ficaram muito, muito amigos. Passavam horas conversando sobre o que queriam da vida, sobre o futuro, sobre música e inclusive sobre o amor. Aquilo era uma amizade de verdade, um quase amor, entre dois jovens.

Em alguns momentos ela achava que era mais que amizade, mas espantava esse pensamento porque afinal ele tinha namorada. Mas gostava de dançar com ele, de dar risada, de ficar ali deixando o tempo passar. Em cada uma das festinhas da turma, ela esperava pela sua vez de dançar com ele. Ele fazia questão de dançar não só com ela, mas com todas as garotas da festa, já que os outros garotos não tinham muita habilidade.

Um dia a família dele decidiu se mudar de cidade e num tempo em que não existia a internet, isso era mesmo uma notícia bombástica. Toda a turma ficou triste e ele também, mas não tinha outro jeito. O namoro dele acabou porque um namoro a distância naquela época era impossível.

Toda a turma organizou uma festa de despedida bem legal para celebrar a amizade. No dia da festa, ele pediu que ela ficasse até o fim para ajudá-lo a arrumar tudo e que ele a levaria em casa depois. Ela ficou. Ajudou a recolher os cartazes, os presentes. Tudo que ele levaria como lembranças daquele tempo e daquelas pessoas para a sua nova vida.

Na porta de casa trocaram um longo abraço e um selinho. Não foi um beijo de verdade, mas foi algo marcante.No dia seguinte ele viajou. Trocaram cartas por muitos anos, mas nunca mais se viram. Acabaram perdendo o contato com o passar do tempo e mudanças de endereços. Só ficou a lembrança daquela amizade ou quase amor.

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{31/12/2010}   Que venha 2011!

Para ler ouvindo Tempos Modernos, de Lulu Santos.

Feliz Ano Novo!Vem aí um ano novinho em folha. Como diz o meu irmão, é uma emoção que se renova. Nos enchemos de esperança para tentarmos fazer tudo diferente ou melhor que no ano que passou.

Para mim 2010 não foi um ano fácil. Foram muitas dificuldades pessoais, financeiras e profissionais, mas eu sempre acredito nas  possibilidades do Ano Novo. É como aquele caderno em branco que a gente ainda vai escrever. Claro que nem tudo depende só de nós mesmos, mas é preciso estar atento para as coisas que dependem e colocar os projetos em prática.

Tirar o Arranhão da Gata do papel, literalmente, foi uma das coisas bacanas que consegui fazer nesse ano e, apesar de um pouco de falta de tempo para escrever com a frequência que gostaria, estou adorando a experiência.

Além disso, 2010 vai ser marcado como o ano em que eu ganhei uma sobrinha e afilhada. Fofíssima! Quem me conhece pessoalmente, sabe o quanto eu estou babando. E o próximo ano será de muitas brincadeiras com a pequena.

Agora é arregaçar as mangas e fazer aquela lista  de boas vibrações. Todo mundo tem o seu ritual pessoal. O meu é um banho de sal grosso para tirar todas as energias ruins do ano que passou. Também gosto de ter pelo menos uma peça de roupa nova. Unhas vermelhas sempre para que nunca falte paixão no dia a dia.

Também vou colocar aqui uma dica de banho para quem quer encontrar um amor. Se você não acredita muito nisso, no mínimo vai passar o  réveillon cheirosa. A dica vem da amiga Gel, que me contou que não se imaginava casada e com uma família e que muitas vezes achava que aquilo não era pra ela. Mas foi exatamente no ano que fez esse banho que ela conheceu o maridão e hoje estão juntos, felizes e com dois lindos filhotes. Aproveito para desejar aqui um Feliz Ano Novo para esses amigos queridos!

Banho para encontrar um amor

  • canela em pau
  • cravos
  • pétalas de rosas vermelhas (ou essência de rosas)

Ferva a água com os ingredientes e deixe esfriar um pouco enquanto você toma o seu banho tradicional. Depois que terminar o banho, jogue o preparado do pescoço para baixo.  Esse é o momento de pensar no tipo de amor que você deseja.  Não use a toalha e deixe o corpo secar naturalmente.

A quantidade fica a seu critério, mas é importante que os ingredientes sejam em número par (12 pétalas, 4 paus de canela, 6 cravos, por exemplo).

Quem fizer e der certo, me conte depois, hein!

Agora se o seu objetivo é mudar de casa ou de trabalho, pegue uma mala vazia e dê uma volta no quarteirão na virada do ano. No mínimo, vai ser divertido. Eu, minha cunhada e uma prima fizemos isso alguns anos atrás. Naquele ano eu mudei de emprego e de casa por coincidência, se é que elas existem.

Termino esse post desejando um Feliz Ano Novo para todos, com muita paz, saúde e prosperidade.

Que venha 2011 com muitas boas histórias de amor para contar por aqui!



{27/08/2010}   Ciúme, erva daninha

Para ler ouvindo Mais uma Vez, do Jota Quest.

Eu sei que Dom Casmurro, de Machado de Assis, é um clássico e que mesmo quem não o leu, sabe do que se trata. Eu confesso que li com muita má vontade às vésperas do vestibular.  É um pecado, eu sei, mas quem já passou por um vestibular aos 17 ou 18 anos, sabe do que eu estou falando. Eu li sobre o livro e sobre o autor em vários lugares. Eu vi na televisão as obras inspiradas na história, mas ler mesmo, do começo ao fim e com empolgação, só na última semana.

Tudo começou quando eu fiz a carteirinha da biblioteca do metrô, tentando colocar em prática o meu projeto de ler mais, mas ao mesmo tempo parar de comprar tantos livros. Pelo que estava escrito no regulamento, a carteirinha ficava pronta em 5 dias, mas para minha surpresa, ficou pronta na mesma hora. A atendente toda feliz me disse: “você pode levar um livro agora mesmo”!. Lá estava um Dom Casmurro novinho e resolvi levá-lo sem a certeza de que iria mesmo relê-lo no prazo de dez dias.

Bom, eu me surpreendi comigo mesma. Não só li no prazo como me apaixonei de novo por Machado. Todo mundo que tem prazer em escrever sente uma pontinha de inveja quando lê algo tão bem escrito. É inevitável pensar em como eu gostaria de escrever daquela forma.

O livro não desvenda o mistério da suposta traição de Capitu e deixa com o leitor a dúvida. Que tire suas conclusões. Muitos acham que tem na narrativa  todos os indícios de que ela traiu Bentinho (embora o texto seja narrado pelo suposto traído) e outros, como eu, acham que foi tudo invenção de uma mente doentia e ciumenta. Mente essa que destruiu um amor tão bonito, um amor da vida toda. É o tipo de discussão que não termina porque quem tem suas convicções não vai mudar de ideia. Eu sei.

Reler Dom Casmurro me levou a duas reflexões. Uma sobre como escrever é mesmo uma arte, um dom e que é preciso aprimorá-lo sempre. Não é mesmo à toa que Machado de Assis é considerado um gênio da nossa literatura. Se você ainda não leu nada dele, sempre é tempo. Não adie mais.

A outra reflexão é sobre como esse sentimento, o ciúme, praticamente uma erva daninha, pode mesmo estragar tudo, principalmente para aqueles que se deixam levar pelas criações da sua própria mente e começam a acreditar nelas como verdadeiras. Já vi mais de uma história de amor terminar assim. Uma pena mesmo.

E mesmo que você tente convencer a pessoa de que ela está errada, que está crucificando um inocente com desconfianças infundadas, ela não te ouve. O ciúme cega mais que qualquer paixão. A pessoa acredita tanto, que depois quando tudo acaba – afinal a outra parte uma hora se cansa de ser acusada injustamente –  sai dizendo por aí que esse foi o motivo, que foi traída, que havia uma terceira pessoa.

Eu não vou aqui dizer que é possível não sentir ciúmes. Todos sentimos e nem faz tão mal sem exageros. O que faz mal é criar motivos e transformar isso em algo maior que o próprio amor. O bom senso, o respeito e a confiança são ingredientes primordiais para qualquer tipo de relação. É preciso reconhecer o limite da individualidade e admitir que se você não é capaz de confiar no outro, então não existe amor. Quem ama, liberta. Um pássaro livre sempre volta pra onde se sente seguro.



{16/08/2010}   Encontros e Desencontros

Para ler ouvindo Pra ser Amor, de Ricky Vallen.

Eles se conheciam desde a adolescência, mas ficaram muitos anos sem se ver. Quando estudavam juntos eram só colegas de classe. Naquela época ele preferia as meninas mais velhas e ela tinha namorado outros garotos da escola, mas não ele. Por isso ela nem imaginava que pudesse um dia se apaixonar por ele.

Foi numa dessas reuniões de amigos que não se veem há muito tempo que eles se reencontraram. De cara rolou uma grande afinidade e muita  conversa. Trocaram telefones, msn, email e não pararam mais de se falar.

Ela morava em outra cidade e por isso o contato era mais virtual, mas isso não impediu que a paixão crescesse, que os poucos encontros fossem intensos e que a cada dia aquilo fosse se transformando em amor. Ele também parecia envolvido. Pelo menos era o que ela sentia cada vez que estavam juntos. Ele era sempre carinhoso, gentil e sedutor.

É possível se envolver e amar muitas e diferentes vezes na vida, mas sempre tem um em especial que você sabe que é o par perfeito. Ela já havia tido outros relacionamentos sérios ao longo da vida. Não era uma garota inexperiente e sabia o que queria.

Ela sentia que ele era o seu par perfeito. O termômetro era o beijo. Claro que tinham também muita sintonia na cama, entre outras afinidades, mas o beijo era a medida daquela paixão. Seu coração dizia que aquele era “o cara”.

Foi por causa dessa certeza que ela pediu transferência no trabalho e foi morar na mesma cidade que ele. Não só para ficar mais perto, mas para viver aquilo de verdade, para que a história pudesse deslanchar.  Como no amor nada é certo e previsível, o que deveria virar um grande amor começou a dar os primeiros sinais de decepção.

Começou com ausências, celulares não atendidos e algumas mentiras descobertas até que o dia que ele anunciou que ia se casar. Como assim se casar de uma hora pra outra? Havia uma namorada? Desde quando? Quem? Muitas dúvidas respondidas apenas com um “resolvi dar uma chance porque é alguém que gosta de mim há muito tempo, que sempre me amou” como se os casamentos fossem feitos de sentimentos unilaterais.

Ela não acreditou. Acho que era um blefe. Aproveitou pra dizer tudo o que sentia, inclusive o que tinha deixado pra trás por causa dele: outro relacionamento, trabalho, amigos. Mas ele não se abalou e disse que pensou que a história deles era só sexo, que eles se curtiam e só. Que agora era tarde.

Não teve jeito. Ele se casou. Ela sofreu, mas foi tocando a vida pra frente. Tentou se esquecer, se envolver novamente com alguém, mas aquele sentimento por ele vinha sempre à tona. Sentia saudades.

O casamento dele durou um ano, bastante até para quem tinha se casado só porque a outra parte o amava. Claro que quando o casamento acabou, ele a procurou. Todas as teorias dizem que o correto era não atender, não falar com ele depois de tudo, muito menos ceder às investidas. Mas o amor não é feito de teorias. Na prática, o sentimento e o desejo sempre falam mais alto.

E lá foi ela ao encontro dele, cheia de expectativas e com aquela sensação de que agora daria certo. Foram alguns meses de felicidade. Se viam com frequência, passavam as noites juntos, mas nunca parecia algo assumido. E ela o amava mais e mais.

Ele não estava pronto pra uma mulher como ela. Era madura, linda, independente, excelente profissional. Talvez fosse muito pra ele, embora isso não tivesse importância pra ela. Ela verdadeiramente o amava. Só que ele definitivamente não percebia isso ou preferia fazer de conta que não percebia.

Do nada, de novo, apareceu com uma namorada oficial. Agora, segundo ele, era o amor da vida, a que ele tinha escolhido para amar. Não, com certeza ele nunca havia amado ninguém. Só podia ser de novo uma fuga.

Mais uma vez ela sofreu, chorou, desesperou, mas acabou. Não acabou o amor, mas acabou a história porque afinal já era uma reincidência. Ela não se arrependia. Havia arriscado tudo, mas era assim mesmo que devia ser quando se ama. Ele perdera a chance de ser feliz por não se arriscar. Talvez nunca aprendesse isso ou precisaria de muito mais encontros e desencontros, quem sabe.



Tudo começou com a insistência dele. Muita insistência. Era um galanteador por natureza. Já ela estava mais focada em estudar e não dava muita atenção para as investidas dele. Ao menos, não no início.

Um conquistador era a palavra que melhor o definia. Todos os dias ele a elogiava, notava a roupa, as mudanças no cabelo, escrevia seu telefone na agenda dela com um lembrete para ligar, mas ela resistia. Tinha acabado de sair de um relacionamento conturbado e tinha jurado a si mesma, como toda mulher jura, que não entraria em outra roubada. Como se fosse possível evitar isso assim, apenas com essa resolução.

Se tornaram amigos, conversavam todos os dias sobre tudo e aos poucos ela foi cedendo aos encantos dele. Um dia o professor faltou. A classe toda resolveu ir ao cinema e lá ele conseguiu roubar um beijo. Foi naquele dia que ela começou a pensar nele com mais frequência e na possibilidade de baixar a guarda.

Saíram de novo para um cinema na semana seguinte. Dessa vez sozinhos. Trocaram mais que um beijo e conversaram sobre o passado, sobre o que estavam sentindo um pelo outro. Ali começou uma grande paixão.

As paixões costumam ter prazo de validade definido. Dizem que duram no máximo dois ou três anos. Mas quando começa a gente sempre aposta que vai virar amor. Apesar de toda a precaução inicial, foi isso que ela fez.  Apostou.

Eles não se largavam. Se viam todos os dias. Estudavam juntos.  Aproveitavam cada momento e não viam a hora de ficarem sozinhos. Ela ainda estava insegura quanto a ir pra cama com ele, apesar da vontade. Como é comum na juventude, não se importavam muito com a intensidade dos amassos em público, mas claro que queriam mais privacidade.

A decisão veio no terraço de um prédio.  Do alto se via a Av. 23 de maio repleta de carros, mas o barulho das buzinas nem chegava aos ouvidos deles, que estavam enlouquecidos de desejo. Entre muitos beijos, abraços e mãos inquietas , ele disse que não parava de pensar nela, que não aguentava esperar mais.

Ela estava louca, louca por ele, mas não ia transar ali no terraço do prédio. Tinha de ser especial.  No dia seguinte.  Decidido! Seria no dia seguinte. Era uma sexta e não teriam hora pra voltar.

Se encontraram no horário de sempre. Andaram rápido, entraram  discretamente no prédio.  Chaves na mão, subiram as escadas apressados. Ela estava com o coração aos pulos, quase saindo pela boca. Ele disfarçava a ansiedade se fazendo de homem experiente, forte e decidido no auge dos seus 21 anos.

Chegaram ao quarto. Apesar de bem jovens, os dois já tinham tido outras experiências, outros relacionamentos, mas isso não tornou aquele momento menos especial. Ele a fez se sentir a mulher mais desejada do mundo. Não teve pressa. Abusou dos elogios e palavras ao pé do ouvido.

Ela controlou o nervosismo e foi a mulher mais doce e carinhosa que ele já tinha estado. Descobriram que na cama combinavam ainda mais. Ela dormiu no calor dos braços dele e acordou com aquela sensação de felicidade que só quem já sentiu sabe como é.

Depois daquela, ainda passaram muitas noites juntos, viajaram, namoraram, se divertiram. Mas como é comum nas paixões que não viram amor, um dia acabou. Antes pra ele que pra ela. Ela sofreu, chorou, jurou, de novo, não se apaixonar nunca mais.

Claro que depois do “luto” emocional ela se apaixonou outras vezes. Ele também. E quando a dor passou, sobraram as lembranças daquela paixão juvenil, os bons momentos, a nostalgia e a conclusão de que nada na vida é em vão e que toda paixão vale a pena.

Para ler ouvindo Woman in Chains, do Tear for Fears.



{12/04/2010}   Síndrome de Dona Flor

Pela primeira vez ela tinha tomado o grande passo de procurar um terapeuta. Chegou ao consultório pensando se teria coragem de contar a ele coisas que nunca tinha contado a ninguém. Cheia de medos e dúvidas foi tentando se acalmar baseada no fato de que pelo menos não seria alguém que ao ouvi-la iria julgá-la por seus atos.

O terapeuta era jovem – o que deu uma certa segurança a ela – e a recebeu com um sorriso no rosto. Pronto. “Pelo menos era bem humorado”, pensou. Ela começou a contar a ele como nos últimos dois meses sua vida se transformara numa grande mistura de sentimentos contraditórios.

Justamente ela que era veemente contra as traições, que dizia que era impossível se relacionar com duas pessoas ao mesmo tempo, que afirmava que antes de sequer olhar para outra pessoa, só o interesse já era um sinal para se separar, se viu numa situação exatamente assim.

Após um beijo inesperado, um desejo enorme despertou dentro dela. Daí pra cama foi um passo rápido. O mais incompreensível para a cabeça dela era continuar a amar o marido como sempre. Nem cogitava a possibilidade de viver sem ele algum dia na vida. No entanto, gostava muito de estar com o outro.

O que a perturbava de verdade era o medo de ser descoberta já que não tinha lá muita vocação para mentir. Não haveria explicação, nem perdão. Alem disso, lhe atormentava o sentimento de culpa por não sentir tanta culpa em fazer aquilo, por achar que merecia viver aquela aventura por mais que fosse impossível explicar a qualquer pessoa.

Claro que houve uma segunda e uma terceira vez, cada uma melhor que a anterior. Viraria um vício? E se a paixão não passasse? E se seus sentimentos mudassem? Mil dúvidas, angústias e muito desejo à flor da pele.

Para seu alívio, o terapeuta não achou que ela precisasse de uma terapia contínua, apenas se auto-observar para que os sentimentos não evoluíssem para uma tristeza profunda, que a levassem a uma depressão. Embora não haja teorias científicas comprovadas, ela mesma classificou o seu caso como síndrome de Dona Flor.

Sim, era isso. O homem perfeito seria uma fusão dos dois. Ao mesmo tempo em que um não deixara de ser o amor da sua vida, admirável, amigo, amante e companheiro, o outro despertava desejos incontroláveis e era bom viver isso. Era bom lembrar do seu beijo, do seu toque, do seu cheiro. E era difícil resistir.

Ela saiu da sala do terapeuta feliz com a possibilidade de ainda estar com a situação sob controle. No entanto, sabia que a Dona Flor podia viver com os dois por ser um personagem de um livro de Jorge Amado e porque um dos dois maridos naquele caso era apenas espírito. Já ela teria que ter forças e colocar um freio em sua aventura mais dia, menos dia, antes que fosse tarde, muito tarde.



{09/03/2010}   Ele era apenas um menino

Ele era só um menino, um garoto de 18 anos no auge de sua virilidade e juventude. Era o primeiro emprego dele e, graças a sua simpatia, fez amizade rapidamente com todos. Ela  tinha uns sete ou oito anos a mais que ele e era casada. Logo tinha reparado nele, mas apenas achou que o que era bonito era para ser admirado, independente do estado civil de cada um.

Ele já tinha tido algumas namoradinhas, mas nada sério. Também logo a notou. Ela tinha se casado cedo, por opção, com o primeiro namorado. Sempre fora um relacionamento tumultuado e ela havia lutado com unhas e dentes pra se casar, daquelas histórias que viram mais questão de honra que amor propriamente dito. Tinham um tempo de casados, se desentendiam algumas vezes, mas pareciam felizes de um modo geral e acreditavam que tudo estava certo.

Foi num momento de certa crise que ela se apaixonou por aquele mocinho. Ele também se apaixonou por ela num piscar de olhos. Entre o bate-papo, o café na lanchonete, a ida ao outro andar, o beijo aconteceu. Ela não podia acreditar que aquele garoto, bem mais novo, mexesse tanto com ela. Mas depois do beijo teve certeza que aquele sentimento era mais forte e incontrolável do que ela podia imaginar.

Ela começou a ressaltar os defeitos do marido como uma forma de justificar aquela atração, mas no fundo ela sabia que estava se apaixonando perdidamente. O desejo foi crescendo. Os beijos nas escadas ou na casa das máquinas do elevador da empresa se tornaram cada vez mais frequentes, assim como as desculpas para trabalharem juntos em alguma atividade. Tudo isso apesar do medo de serem flagrados e consequentemente demitidos.

Ele só a queria pra ele. Com todo o idealismo e coragem propício da juventude se  julgava capaz de dizer pra ela largar tudo e ficar com ele, morar junto inclusive, como se fosse possível num passe de mágica. E por que não? Ela intimamente sabia que aquilo era um rompante da idade ou pelo menos tentava se convencer disso. Ela não tinha coragem de assumir pra todos que queria deixar o marido pra viver uma paixão com um garoto.

Começou a achar que era apenas um fetiche, uma fantasia, uma atração física e que com uma ida pra cama ao menos uma vez, tudo se resolveria. Arquitetaram um plano, disfarce, carro emprestado, motel afastado. Naquele momento, os dois pareciam adolescentes e não apenas ele. Era agora ou nunca e ela estava disposta a tudo.

O desejo estava à flor da pele para os dois. Tiveram o encontro mais quente e apaixonado de suas vidas. Embora jovem e teoricamente inexperiente, ele a fez se sentir a mulher mais desejada do mundo.O corpo dela tremia só de lembrar daquela primeira vez tão excitante. Aquele garoto se revelou como um homem que sabia como agradar  a uma mulher na cama.  Seu beijo era suave, suas mãos eram firmes.

Outros encontros aconteceram, cada dia melhores,  e eles tentaram levar aquela loucura adiante, mas ninguém consegue manter uma paixão em segredo por tanto tempo. Ela decidiu se separar independente daquela história. Ele se animou com a decisão. Ela realmente se separou, mas decidiu terminar com ele também. “Ele era só um menino”, ela pensava.

Os dois sofreram, como era de se esperar, mas superaram. Nunca mais se viram, nem se falaram. Tocaram suas vidas. Com certeza vão sempre se lembrar da história que viveram com alguma ternura e dor. Ele era só um menino e ela era só uma mulher que viveu uma grande paixão, mesmo que isso fosse difícil de explicar. Um dia contaria aos netos.



Era pra ser só uma aventura, era pra ser só “sexo e amizade” como diz a música. No entanto, razão e paixão são dois sentimentos que não caminham juntos e tolo é aquele que acha que pode sempre ter o controle desse tipo de situação. Foi com esse pensamento de auto-controle que ela achou que era possível  – depois daquele beijo roubado – ter uma noite de amor com ele. Afinal seria a realização de um desejo antigo e depois tudo voltaria ao normal, cada um tocando sua vida e fim.

O beijo foi o ponto de partida e o “problema” é que ele realmente sabia beijar. Daqueles homens que fazem uma mulher ter vontade de ir pra cama com ele só por causa do beijo. Um beijo voraz, mas ao mesmo tempo suave e aconchegante. O vilão foi o beijo. Depois daquele beijo ela não conseguia parar de pensar nele.

Um dia ela tomou coragem e ligou com aquela velha frase  “precisamos conversar sobre o que aconteceu”. Ele hesitou um pouco e disse “preciso levar umas coisas em casa. Então venha comigo e a gente conversa no caminho”. Com o coração aos pulos ela foi ao encontro dele pensando se aquela noite terminaria mesmo só na conversa. No fundo, ela sabia que não.

Ela abriu seu coração sobre o que vinha sentindo depois daquele dia, da vontade, desejo, confusão de sentimentos, enfim, coisas que só uma mulher consegue expressar mesmo que a outra parte não vá entender. Ele pareceu um pouco assustado, mas manifestou um tímido “eu também sinto desejo”. Sim, conversaram bastante e isso foi bom porque tudo parecia muito limpo e claro como nunca havia sido entre os dois.

Ao repetir o beijo, foi inevitável continuar. No limite das carícias, ele disse “agora não dá pra voltar atrás” e ela respondeu “e quem disse que eu quero voltar atrás?”.  Havia o ritmo, havia o toque da pele, havia a sintonia dos corpos, havia a mistura do desejo contido pelo tempo com a sabedoria da maturidade. Perfeito!

Ele sabia como satisfazer uma mulher no sentido mais amplo da palavra satisfação. Sabia esperar o momento certo, sabia escolher o toque e principalmente sabia a importância do beijo no conjunto completo da obra. Foi assim naquela primeira vez e nas poucas outras que se seguiram.

A química era perfeita, mas o relacionamento impossível. Talvez para deixar ainda mais excitante, tinha de ser proibido, freado. Ela percebeu que não era só uma aventura controlável. Era sim uma paixão daquelas que te consome, toma conta dos seus pensamentos, te faz cometer loucuras por mais que se tente manter os pés no chão.

E agora? Como agir? Ter paciência e discernimento para esperar passar talvez seja a única fórmula. Sim, a maturidade faz com que a gente saiba que as paixôes vêm e vão com a mesma intensidade. Só não é possível prever quanto tempo isso leva, nem como suportar a dor até que tudo se transforme em mais uma bela história de amor do passado, daquelas que sempre valem a pena ser lembradas.



et cetera