O Arranhão da Gata











{04/06/2013}   Tudo sobre minha mãe

maeTenho certeza que Almodóvar não ficará chateado por eu pegar emprestado o nome de um dos seus filmes para esse texto em homenagem à minha mãe. Até porque foi ela quem me ensinou a gostar dele e também de Tarantino e Woody Allen. Quando saía um filme novo de algum deles, a gente sempre combinava de assistir juntas.

Não sei se consigo escrever tudo o que aprendi com a minha mãe porque foram muitas coisas, mas a principal é que ela me ensinou a ser uma pessoa boa acima de tudo e que a gente deve fidelidade aos nossos princípios em qualquer situação e a mais ninguém.

Ainda preciso evoluir para ser como ela, que era capaz de ajudar as pessoas sem se importar se elas dariam valor a isso ou não. Quando alguém dizia que a pessoa não merecia ajuda, ela sempre respondia que a ela não cabia julgar ninguém, que a parte dela era ajudar e só. O resto era com a pessoa.

Eu e a minha mãe sempre fomos muito amigas. A pouca diferença de idade nos beneficiava e ela adorava quando alguém dizia que mais parecíamos irmãs que mãe e filha. Acho que na minha vida toda só deixei de contar duas coisas a ela e, mesmo assim, foi mais para poupá-la de se preocupar comigo que para esconder de fato.

Minha mãe me ensinou que um beijinho pode curar quase tudo nessa vida, que demonstrações de afeto salvam o dia e que a gente nunca deve se esquecer disso.

Aprendi que a gente pode economizar com tudo, menos com comida. Se tiver vontade de comer alguma coisa, nunca pense muito no preço. Felicidade numa casa é harmonia entre as pessoas e uma geladeira cheia de coisas gostosas.

Ela também dizia que todo dia podia ser um dia especial. Não ligava muito para as datas comerciais. Nossas comemorações de dia das mães já foram muitas vezes no meio de semana com almoço no Sujinho, cineminha à tarde e café com casadinho de camarão na Ofner do Center 3. Sentirei muita saudade disso, dessa nossa cumplicidade nas pequenas coisas.

Minha mãe me ensinou que aniversário sempre deve ser comemorado porque a gente deve se sentir feliz em estar vivo e poder fazer coisas simples como tomar um banho gostoso, um belo café da manhã e abraçar quem a gente ama. Em todos os dias que fiquei com ela no hospital eu pensava como a gente faz tudo isso no automático e nem imagina como é triste não poder fazer essas coisas. Aprendi a dar mais valor ainda a cada gesto rotineiro.

Minha mãe dizia que não podia nos proibir de nada, mas que um grande conselho sobre vícios é que o melhor era nem começar a fumar, beber ou qualquer outra coisa. Afinal se livrar deles depois seria uma tarefa muito difícil. Ela me explicou quando eu fiquei mocinha que sexo não era pecado, nem tinha nada de errado. Apenas precisava ser consciente e responsável e, de preferência, com amor. Estava certíssima, como sempre.

Eu sei que ela me achava um pouco careta, romântica e noveleira, características que não vieram dela, mas sim da minha avó. Ela era muito prática, até porque a vida exigiu isso dela muito cedo, e achava engraçado o meu jeito meio “cinderelesco” da juventude. Mas com a maturidade, acho que melhorei.

Com a minha mãe aprendi a dar muito valor aos amigos, que são a família que a gente encontra pela vida. Os dela eram de longa data. Só que ela conseguia não se chatear com alguma ingratidão ou falta de reciprocidade. Isso eu ainda preciso aprender.

Doar o que a gente não usa para quem precisa foi algo que também aprendi com ela, que sempre dizia que era um absurdo guardar roupas que não serviam. Energia parada, inclusive, impedia a gente de emagrecer. E nada daquilo que a gente não usasse mais deveria ficar ocupando espaço, já que poderia fazer outra pessoa bem feliz.

Minha mãe era bem vaidosa e isso eu não herdei muito. Talvez só o gosto pelos esmaltes e unhas compridas. Sempre fui meio moleca e muito desajeitada para saltos altos. Mas guardo comigo um conselho que fazia parte do jeito de ser dela: haja o que houver, nos seus piores dias, nunca saia sem batom e sem perfume.

Com ela também aprendi que tem uma coisa que ninguém te rouba: o conhecimento. Foi com ela que adquiri o hábito de ler jornal e a ter amor pelos livros. Com muito ou pouco espaço, os livros sempre estiveram presentes na nossa casa. E nunca foram decoração porque ela adorava ler. Até hoje quando entro em uma casa que não tem livros, acho estranho. Ela também dizia que gastar com uma viagem era um dinheiro bem gasto porque o que você vê, conhece e aprende ninguém tira de você.

Minha mãe me ensinou a gostar de música boa. Foi com ela que conheci MPB, Beatles, B.B. King, Eric Clapton e Aretha Franklin, entre tantos outros. Mas ela também soube curtir comigo as minhas preferências musicais da adolescência, tipo a febre do Menudo. Foi grande companheira de shows de rock nacional nos anos 80 e também me deu de presente de aniversário um ingresso para o Rock in Rio, em 1991, mesmo ano em que eu entrei na faculdade.

Eu poderia escrever um livro inteiro e ainda teria histórias nossas para contar. Todos os dias eu ainda tenho um impulso de ligar pra ela ou quando o telefone toca, por um segundo, acho que é ela me ligando. Eu sei que só tempo vai amenizar a dor, mas a saudade estará sempre presente. Difícil tocar em frente. Sou uma pessoa espiritualizada, algo que também aprendi com ela. Sei que a vida não acaba por aqui, mas mesmo assim não estava preparada para essa separação tão precoce. Acho que não importa a idade, mas nunca se está preparado para isso.

Mãe, eterno amor por você.

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{13/03/2011}   Meus 13 anos

Para ler ouvindo qualquer música que lembre a sua adolescência.

Ontem fui à festa de aniversário de 13 anos de uma pessoinha muito querida: Isabella. Mais que filha da minha amiga de longa data, ela é como uma sobrinha e afilhada do coração para mim. Foi a sua primeira “festa balada” com direito a DJ, decoração especial e presença dos amigos do colégio e do prédio. Com seu bom coração pisciano, ela liberou a presença dos tios e nós adoramos participar desse momento especial da vida dela. Foi inevitável me lembrar dela bebê, da festa de 1 aninho, da formatura do pré, do pingente com o dentinho de leite que ganhei e tantas outras datas.

Ao ver toda aquela garotada dançando feliz, compartilhando aquele momento de amizade, minha mente voou ao passado e me levou aos meus 13 anos. Também foi a minha primeira festa de aniversário “de mocinha”. Tudo que a gente queria naquela época era uma festa com os amigos e música pra dançar. A minha avó morava com a gente e ela não gostava de muvuca em casa. Por isso eu e minha mãe arquitetamos um plano infalível: a simulação de uma festa supresa. Os meus amigos chegariam de repente com a vitrola, discos e animação. Com isso, minha avó não ficaria brava com a bagunça. Afinal era o meu aniversário!

Era uma época de grana muito curta. Quem não viveu os anos da inflação não imagina como era. Se você não comprasse algo hoje, amanhã já custava bem mais caro. E isso valia pra tudo, menos para os salários, claro. Por conta disso, minha mãe ficou preocupada e disse que não daria para fazer uma super festa. Mas eu reforcei que a gente só queria ouvir música e dançar, que podia ter apenas cachorro-quente e groselha pro pessoal.

O sábado chegou e eu estava ansiosíssima pela minha festa. Minha mãe preparou os lanches na casa da nossa vizinha, uma catarinense super gente boa. Era época do new wave e lá estava eu vestida com uma blusinha verde-limão, que tinha uma manga amarela e outra laranja. Inesquecível isso! Às 19 horas meus amigos chegaram todos juntos conforme o combinado. Trouxeram a vitrola, os discos e até alguns presentinhos (eu havia dito que presente não precisava). Lá  fomos nós para o quarto da minha mãe onde seria o “bailinho”, como a gente chamava esses eventos.

Eu sou o tipo de pessoa que adora fazer aniversário, mesmo que uns dias antes eu fique chateada pelo tradicional balanço que fazemos da vida, quando chega o dia eu sempre fico feliz. Gosto muito de me lembrar dessa primeira festa da adolescência porque acho que foi nela que me dei conta do quanto eu gostava de estar com os meus amigos e celebrar a vida.

Apesar do improviso todo, minha festa foi um sucesso. Lembro que foi a primeira vez que dancei uma música lenta com um menino. Hoje isso é meio jurássico, mas havia uma seleção de lentas nas festinhas e esse era o momento dos meninos e meninas se aproximarem. O menino com quem eu dancei não era do colégio e sim da nossa turma da rua. Ele era tipo o gatinho da vez e todas as meninas gostavam dele, mas depois ele se mudou de cidade e perdemos o contato. Era um tempo sem redes sociais e mensageiros instantâneos, infelizmente.

Desse dia também me lembro dos amigos presentes. Com alguns deles, tenho contato até hoje e talvez eles também se lembrem dessa festinha. O prejuízo do dia foi o berço quebrado do meu irmão. Ele não tinha uma das laterais e os meninos, sempre eles, pensaram que era um sofá e se sentaram. Claro que o berço não aguentou o peso e foi pro chão. Por isso meu irmão ganhou o privilégio de dormir na cama da minha mãe até ter uma cama pra ele. Fato que ele adorou.

As músicas daquele dia também estão na minha lembrança e até por isso não separei uma em especial para ser a trilha desse post. Só para citar algumas: praticamente o disco todo do Thriller, de Michael Jackson; pelo menos Não se reprima e If you´re not here, do Menudo; Girls just wanna have fun, de Cindy Lauper e muito rock nacional da Blitz, Paralamas, Titãs e por aí vai. A lenta que dancei com o meu amigo foi Ebony Eyes, de Rick James e para terminar a festa era um clássico tocar Devotion, do Earth.

Estar na festa da Isabella me levou a essa viagem no tempo. Tudo que eu desejo é que quando ela fique mais velha se lembre dessa festa de 13 anos como um dia especial, assim como eu me lembro da minha. As boas lembranças fazem a vida valer a pena.



et cetera