O Arranhão da Gata











{05/07/2011}   Amor clandestino

Para ler ouvindo Part Time Lover, de Stevie Wonder.

Amor clandestinoEm alguns dias ela não se perdoava por trair o marido. Em outros ela se sentia viva e feliz por viver aquele amor clandestino. Ele também era casado, mas não era do tipo que sentia culpa por trair a mulher. Fazia parte daquele grupo de homens que não nasceu para ser de uma mulher só. Uma amiga sempre dizia a ele que se tinha consciência disso, nunca deveria ter se casado, e muito menos mais de uma vez. Mas ele alegava que as coisas iam acontecendo e ele era do tipo que deixava sair do controle.

A verdade é que entre esses dois havia a sintonia perfeita. Quando estavam juntos não importava o mundo lá fora, seus pares oficiais, as convenções monogâmicas da sociedade. Só importava aquela possibilidade de ficarem juntos, mesmo que por pouco tempo, mesmo que escondido, o que inclusive tornava a relação ainda mais excitante. Tinham um pacto de segredo e respeitavam até certo ponto. Ele talvez nunca tenha contado mesmo a ninguém. Ela só havia contado a uma amiga.

Nessa relação não havia a expectativa de que se separassem para ficarem juntos. Se isso acontecesse, não daria certo. O que funcionava pra eles era justamente o amor proibido. Ela contava os dias para que o encontro fosse possível. Ele se arriscava mais. Aparecia de surpresa. Mandava mensagens picantes quando a saudade batia.

Na cama era perfeito. Com ele era possível se sentir mulher de verdade, despudorada e se entregar de uma forma que nunca havia feito com ninguém. Ela também era perfeita para ele porque sempre satisfazia suas vontades e embarcava nas suas fantasias loucas. Ele sabia dar prazer a ela e se sentia muito realizado por isso. Não era um homem egoísta preocupado só com o seu próprio prazer. Essa cumplicidade só tinham um com o outro e sabiam que era única.

Ela perdia a cabeça quando ele ligava com alguma proposta, quando queria saber que lingerie estava usando, que precisava dizer que o vinho já estava gelando, que havia comprado um “brinquedinho” novo e que precisava saber se ela o desejava tanto quanto ele a ela. É claro que sim.

Mas se alguém acha que era só sexo, não era. Eles realmente se amavam loucamente. Tão loucamente que era impossível terem um relacionamento tradicional. Tinham afinidades sobre o modo de pensar a vida e sobre o que queriam pro futuro.

Mas por que não chutavam tudo por alto e ficavam juntos? Nem eles mesmos conseguiam responder. Provavelmente porque não conseguiriam sair do papel de amantes perfeitos para o de casal mais ou menos ou medíocre e assim levaram a vida por muitos anos e com a sorte de ninguém descobrir.

Um dia acabou, mas não porque não se amavam mais e sim porque o destino os afastou. A separação foi física, mas no coração e na alma sempre levaram um ao outro como o amor mais perfeito que viveram. Sofreram com a distância, mas sabiam que era por um bem maior e que um ciclo havia se encerrado. Felizes os que entendem isso e guardam o que ficou de bom sem se lamentar.

O amor não tem regras, nem receitas. O que funciona pra um casal, não necessariamente funciona pra outro e convenções não valem mesmo para uma boa história de amor. Mesmo sendo clandestino ou errado aos olhos dos outros, o importante é viver de verdade tudo que a vida puder nos oferecer. Pena mesmo é desperdiçar energia pensando no que poderia ter sido por medo de enfrentar os próprios sentimentos.

E você, já viveu um amor clandestino ou proibido?  Quer me contar a sua história?

Anúncios


{10/05/2011}   As avós nunca morrem

Eu fui uma típica garotinha criada pela avó. Embora todo mundo ache que isso signifique excesso de mimo, ela me ensinou muito sobre disciplina e caráter. Está certo que ela coava o meu leite e até hoje eu não posso nem ver uma nata no copo, mas isso era só um agrado como ficar ao meu lado quando eu tinha medo antes de dormir ou fazer aquela comidinha que eu mais gostava. Essa era a minha avó materna, a vó Lidia, que morreu quando eu tinha 22 anos, no ano que eu me formei na faculdade. Senti muito por ela não estar aqui na formatura, mas tenho certeza que de algum outro plano ela estava vendo.

Nessa semana perdi a minha avó paterna, vó Djanira, já bem velhinha e debilitada. Por mais que a gente saiba que a morte é algo certo pra todo mundo, sempre que acontece com alguém próximo faz com que a gente se lembre de tudo que viveu com aquela pessoa. Ela morava no Rio de Janeiro e a gente não se via muito, mas dos 14 aos 20 anos eu passei todas as férias na casa dela. O que mais me lembro era do seu bom humor. Ela fazia todas as atividades domésticas cantando. Tinha sempre um rádio como companheiro. Isso era algo em comum nas minhas duas avós.

Também me lembro dela sentada na varanda nos contando as histórias da sua juventude, de como tinha sido enfrentar o preconceito de se casar com um português, sendo uma bela jovem negra. Eu adorava ouvir aquelas histórias todas. Também me admirava com a disposição dela. Nunca vi roupas tão brancas como as que ela lavava, nem tão bem passadas. Ela cortava cana dos pés que havia no fundo do quintal e fazia uma garapa fresquinha pra mim. Eu, que era totalmente urbana e criada em apartamento, adorava essas coisas de quintal, sucos – refrescos, com sotaque carioca, como ela dizia – feitos com frutas tiradas do pé minutos antes.

Um pouco antes de me casar, exatamente há 11 anos, fui visitá-la e contei que ia me casar, que não ia ser um casamento tradicional, que eu ia viajar e que estava muito feliz. Lembro que ela me disse: “minha neta, o que importa é que ele seja um bom marido para você e tenho certeza de que vai ser”. Ela acertou.

Eu tive que dar a notícia ao meu pai de que a mãe dele havia morrido. Isso foi muito triste porque mesmo aos 65 anos ele é um filho e um filho nunca está preparado para o dia da morte de sua mãe. Nós todos esperamos que ela esteja agora num plano melhor, sem sofrimento, sem dores, essas coisas todas que a gente deseja a quem a gente ama.

Agradeço por ter tido o carinho e amor das minhas duas avós. Acho que avós são mesmo anjos sem asas que estão aqui para nos proteger, fazer nossas vontades, dar colo e aliviar um pouco o trabalho das mães. Eu acredito que existe um céu das avós e lá elas continuam olhando pelos netos, mesmo os já crescidinhos como eu.



{08/03/2010}   O Beijo

Ela já conhecia bem o sabor daquele beijo. Estava guardado em algum lugar da memória e nem ela sabia que ainda era possível se lembrar. Foi numa troca de olhares que a chama daquela paixão antiga se reacendeu, mas ela nem se deu conta no primeiro momento.

Ele fazia o tipo conquistador. Era mais o charme, a voz macia, o perfume, o galanteio em si, que beleza. Por coincidência – se é que elas existem – os dois se encontraram numa casa noturna numa noite dessas. Conversaram muito sobre a vida nos últimos anos, beberam cerveja, curtiram a banda, tudo como bons e velhos amigos.

Ela se sentiu atraída por ele, mas tentou espantar o pensamento. Talvez fosse o lugar, o clima. Talvez fosse a nostalgia ou um pouco de carência. Ele lamentou os amores perdidos e como ela temia, tocou no assunto com um “lembra da gente?”. Obviamente ela se lembrava muito bem, mas tentou fazer de conta que tinha um significado menor e disse “ah, era outro momento das nossas vidas, passou”.

Músicas mais antigas começaram a tocar. Um clima de nostalgia surgiu e eles começaram a cantar junto. Vieram outras mais agitadas e eles começaram a dançar. Foi quando ela sentiu a mão dele na sua cintura e gelou. Por sorte ela estava de costas pra ele e ele não percebeu a sua cara de “isso não está acontecendo!”. Sem saber direito o que fazer, ela segurou as duas mãos dele e continuou dançando.

Ele foi chegando mais perto e ela sentia o calor do corpo dele junto ao seu, mas não se virou. Era uma mistura de medo e desejo. Foi quando ele a virou repentinamente e num segundo os lábios se encontraram. Ela não resistiu e ele a beijou. Foi um beijo intenso, cheio de paixão e desejo. Parecia que não havia mais ninguém em volta e a música ficou ao longe.

Ela ficou de perna bamba, atortoada pelo inusitado daquilo ter acontecido. Ele queria mais beijos e mais que beijos, mas ela ainda estava se refazendo do susto. Ela não teve coragem. Foi como se apesar do desejo, ela conseguisse manter os pés no chão com o pensamento de que aquela história não era mais possível, não agora.

Ele demonstrou frustração na hora de ir embora. “Que dia para estar sem carro!”, pensou. Pegaram o mesmo táxi. Ela querendo chegar em casa e apagar tudo da mente, como se isso fosse possível. Ele na expectativa dela mudar de ideia, roubou mais uns beijos no táxi. Num determinado ponto se despediram, com gostinho de quero mais.

Ela não conseguiu dormir sentindo o gosto do beijo dele. Ele também não. E os dois pensaram:  tudo bem, um dia, de novo, se reencontrariam, quem sabe…sem medos.



et cetera