O Arranhão da Gata











{21/08/2012}   Livros, um caso de amor

 Há quem vá estranhar que eu tenha resolvido destinar um post aos livros, já que o blog costuma abordar os relacionamentos, mas como eu tenho um caso de amor com os livros desde pequenininha, o tema tem tudo a ver.  Minha mãe sempre gostou muito de ler e na nossa casa sempre teve muitos livros.  Hoje em dia estranho muito quando vou a uma casa que não tem livros. Parece que está faltando alguma coisa e realmente está. Algumas pessoas não leem nada mesmo e outras escondem os livros no maleiro porque “atrapalha”  a decoração. Eu acho esquisitíssimo, mas a vida é assim. Se fôssemos todos iguais, talvez ficasse meio sem graça a convivência na terra.

Ler é um hábito e por isso é bacana incentivar as crianças desde bem pequenas. Sempre procuro dar livros de presente para as crianças porque eu sei como isso faz diferença na vida da pessoa. Na infância, eu ganhava muitos livros da minha mãe, da tia Marta e da tia Nicinha. Comecei com Monteiro Lobato e me apaixonei porque os livros eram ainda mais legais que o Sítio do Pica-Pau Amarelo na televisão.

Na adolescência, confesso, eu fui uma leitora de romances do tipo Júlia, Bianca e Sabrina e também de Sidney Sheldon. Minha mãe ficava louca comigo porque afinal em casa havia todos os clássicos da literatura e eu não queria saber deles. Mas me redimi porque depois de adulta eu os li (não tantos quanto ela, mas li). E, claro, me apaixonei por Machado de Assis e Eça de Queirós.

Na época da faculdade também era preciso ler bastante, mas foi depois dessa época  que comecei a ler ainda mais. Os livros sempre foram meus companheiros de metrô, a salvação quando havia alguma pane e era preciso ficar parada lá na Sé. Já houve um período em que resisti aos best sellers porque não queria ler o que todo mundo estava lendo. Essa coisa de ser igual a todo mundo nunca foi o meu forte, mas com a maturidade acabei me rendendo a esses livros também. Já acordei de madrugada pra terminar um capítulo que ficou perseguindo os meus sonhos. Acho que isso foi com O Código da Vinci, de Dan Brown (um dos que eu resisti quando todo mundo estava lendo).

Nesse ano tive a oportunidade de trabalhar na Bienal do Livro e isso foi muito bacana. Além de aprender um pouco mais sobre como funciona uma editora, o mercado editorial e os lançamentos, pude observar a relação de algumas pessoas com os livros. Achei bacana quando uma garota de uns 13 anos me disse que a sua meta era ler uns trinta livros até o final do ano. Tive a impressão que, embora ainda não seja uma regra, uma parcela dos jovens de hoje está apaixonada pelos livros.  Por outro lado, ainda tem gente que entra num estande cheio de livros com um sorvete nas mãos. Eu ficava indignada.

Na Bienal também havia um louco de verdade e não só por livros. Dentro da sua loucura ele iria abrir sua própria editora e queria contratar uma das meninas que trabalhava comigo. Deu até pra ficar com medo porque todos os dias o sujeito aparecia por lá com a mesma conversa, mas com cara de que havia dormido no Anhembi. Ainda bem que depois de alguns chegas-pra-lá ele se conformou. Esse foi um episódio a parte, que passado o medo, rendeu algumas risadas. Fiz novos e agradáveis amigos nesses dez dias de trabalho, que também são amantes dos livros. Por isso acredito que o mundo não esteja tão perdido. Afinal alguns ainda dão prioridade ao conhecimento.

Fiz algumas comprinhas na Bienal e agora estou aqui arranjando tempo pra ler entre um trabalho e outro. Em breve irei postar alguma Dica da Gata. Em tempos de e-books continuo tendo prazer no livro de papel, seu cheiro, textura da capa e aquela sensação de poder viajar a cada virada de página com a personagem. Realmente alguns casos de amor são pra vida inteira. O meu com os livros certamente é.

 

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{27/08/2010}   Ciúme, erva daninha

Para ler ouvindo Mais uma Vez, do Jota Quest.

Eu sei que Dom Casmurro, de Machado de Assis, é um clássico e que mesmo quem não o leu, sabe do que se trata. Eu confesso que li com muita má vontade às vésperas do vestibular.  É um pecado, eu sei, mas quem já passou por um vestibular aos 17 ou 18 anos, sabe do que eu estou falando. Eu li sobre o livro e sobre o autor em vários lugares. Eu vi na televisão as obras inspiradas na história, mas ler mesmo, do começo ao fim e com empolgação, só na última semana.

Tudo começou quando eu fiz a carteirinha da biblioteca do metrô, tentando colocar em prática o meu projeto de ler mais, mas ao mesmo tempo parar de comprar tantos livros. Pelo que estava escrito no regulamento, a carteirinha ficava pronta em 5 dias, mas para minha surpresa, ficou pronta na mesma hora. A atendente toda feliz me disse: “você pode levar um livro agora mesmo”!. Lá estava um Dom Casmurro novinho e resolvi levá-lo sem a certeza de que iria mesmo relê-lo no prazo de dez dias.

Bom, eu me surpreendi comigo mesma. Não só li no prazo como me apaixonei de novo por Machado. Todo mundo que tem prazer em escrever sente uma pontinha de inveja quando lê algo tão bem escrito. É inevitável pensar em como eu gostaria de escrever daquela forma.

O livro não desvenda o mistério da suposta traição de Capitu e deixa com o leitor a dúvida. Que tire suas conclusões. Muitos acham que tem na narrativa  todos os indícios de que ela traiu Bentinho (embora o texto seja narrado pelo suposto traído) e outros, como eu, acham que foi tudo invenção de uma mente doentia e ciumenta. Mente essa que destruiu um amor tão bonito, um amor da vida toda. É o tipo de discussão que não termina porque quem tem suas convicções não vai mudar de ideia. Eu sei.

Reler Dom Casmurro me levou a duas reflexões. Uma sobre como escrever é mesmo uma arte, um dom e que é preciso aprimorá-lo sempre. Não é mesmo à toa que Machado de Assis é considerado um gênio da nossa literatura. Se você ainda não leu nada dele, sempre é tempo. Não adie mais.

A outra reflexão é sobre como esse sentimento, o ciúme, praticamente uma erva daninha, pode mesmo estragar tudo, principalmente para aqueles que se deixam levar pelas criações da sua própria mente e começam a acreditar nelas como verdadeiras. Já vi mais de uma história de amor terminar assim. Uma pena mesmo.

E mesmo que você tente convencer a pessoa de que ela está errada, que está crucificando um inocente com desconfianças infundadas, ela não te ouve. O ciúme cega mais que qualquer paixão. A pessoa acredita tanto, que depois quando tudo acaba – afinal a outra parte uma hora se cansa de ser acusada injustamente –  sai dizendo por aí que esse foi o motivo, que foi traída, que havia uma terceira pessoa.

Eu não vou aqui dizer que é possível não sentir ciúmes. Todos sentimos e nem faz tão mal sem exageros. O que faz mal é criar motivos e transformar isso em algo maior que o próprio amor. O bom senso, o respeito e a confiança são ingredientes primordiais para qualquer tipo de relação. É preciso reconhecer o limite da individualidade e admitir que se você não é capaz de confiar no outro, então não existe amor. Quem ama, liberta. Um pássaro livre sempre volta pra onde se sente seguro.



et cetera