O Arranhão da Gata











{06/09/2010}   Último encontro

Para ler ouvindo Bem que se quis, de Marisa Monte.

Aquele encontro numa manhã de quinta-feira seria o último, mas eles não haviam planejado isso. Não teve tom de despedida, mas o destino se encarregou de dar um novo rumo para a vida de ambos, de modo que tudo acabasse, sem muitas explicações, como acontece quando se acorda de um sonho bom.

Para ela, ele era o amor da vida toda, entre muitos encontros e desencontros, intervalos, outros amores. Ela era pra ele a mulher ideal, mas inalcançável. Não conseguiam ter um relacionamento normal, apesar do sentimento recíproco. Só dava certo quando era proibido e quando deixava de ser, não dava mais.

Naquela manhã quente de novembro marcaram um encontro num hotel. Encontro esse que vinha sendo apimentado pela dificuldade de se concretizar. Trocavam mensagens sobre a expectativa que o dia possível chegasse com insinuações provocantes. Alimentar tudo isso era ainda mais excitante que o dia em si.

Finalmente a agenda bateu. Tinha de ser cedo. Depois cada um iria para o seu trabalho. Ele chegou primeiro, escolheu o quarto, pegou as chaves e esperou por ela. Os dois tinham muita afinidade e a química na cama era perfeita. Ele já tinha tido muitas mulheres, mas com ela era fantástico. Um sabia exatamente como agradar ao outro sem que fosse preciso dizer nada.

Ela chegou meia hora depois. Óculos escuros, passos rápidos. Deixou o documento, subiu as escadas, abriu a porta já destrancada. Reclamou do calor e ele brincou dizendo que ainda gostava dela mesmo assim suada. Se beijaram demoradamente e era sempre como a primeira vez. Ela dizia que ele tinha o beijo certo, o número dela.

Por mais pressa que tivessem, se amaram devagar. Ela intercalava as carícias com pequenas declarações de amor. Ele sentia prazer em perceber o prazer que dava a ela. Talvez se soubessem que seria o último encontro, tivessem dito mais coisas um ao outro. Mas como não sabiam, se concentraram em aproveitar o momento da melhor forma.

Como costuma acontecer a todos os casais apaixonados, o tempo passou rápido. Ainda deu tempo para um banho juntos. Nessa hora bateu uma tristeza. A tristeza do desencontro de não poderem estar juntos o tempo que quisessem. Muita coisa não dependia só da vontade. Só em amor de novela tudo é possível, mas ali era a vida real.

Ela foi embora antes. Ele ainda ficou por lá relembrando cada momento. Ele já vinha pensando, mas não tinha decidido. Por isso não tinha dito a ela que não se veriam mais. Mas era melhor assim, sem despedidas. Chorou sozinho. No caminho, ainda deu um telefonema para dizer que tinha tido uma manhã maravilhosa, inesquecível. Ela disse que pra ela também havia sido. Desligaram.

Depois disso não se encontraram mais. Ele sempre vinha com a desculpa de que não dava por causa do horário de trabalho. Como algumas coisas na vida não precisam ser ditas explicitamente, ela acabou entendendo que era melhor assim. De tudo que viveram, ficou a saudade.

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Era pra ser só uma aventura, era pra ser só “sexo e amizade” como diz a música. No entanto, razão e paixão são dois sentimentos que não caminham juntos e tolo é aquele que acha que pode sempre ter o controle desse tipo de situação. Foi com esse pensamento de auto-controle que ela achou que era possível  – depois daquele beijo roubado – ter uma noite de amor com ele. Afinal seria a realização de um desejo antigo e depois tudo voltaria ao normal, cada um tocando sua vida e fim.

O beijo foi o ponto de partida e o “problema” é que ele realmente sabia beijar. Daqueles homens que fazem uma mulher ter vontade de ir pra cama com ele só por causa do beijo. Um beijo voraz, mas ao mesmo tempo suave e aconchegante. O vilão foi o beijo. Depois daquele beijo ela não conseguia parar de pensar nele.

Um dia ela tomou coragem e ligou com aquela velha frase  “precisamos conversar sobre o que aconteceu”. Ele hesitou um pouco e disse “preciso levar umas coisas em casa. Então venha comigo e a gente conversa no caminho”. Com o coração aos pulos ela foi ao encontro dele pensando se aquela noite terminaria mesmo só na conversa. No fundo, ela sabia que não.

Ela abriu seu coração sobre o que vinha sentindo depois daquele dia, da vontade, desejo, confusão de sentimentos, enfim, coisas que só uma mulher consegue expressar mesmo que a outra parte não vá entender. Ele pareceu um pouco assustado, mas manifestou um tímido “eu também sinto desejo”. Sim, conversaram bastante e isso foi bom porque tudo parecia muito limpo e claro como nunca havia sido entre os dois.

Ao repetir o beijo, foi inevitável continuar. No limite das carícias, ele disse “agora não dá pra voltar atrás” e ela respondeu “e quem disse que eu quero voltar atrás?”.  Havia o ritmo, havia o toque da pele, havia a sintonia dos corpos, havia a mistura do desejo contido pelo tempo com a sabedoria da maturidade. Perfeito!

Ele sabia como satisfazer uma mulher no sentido mais amplo da palavra satisfação. Sabia esperar o momento certo, sabia escolher o toque e principalmente sabia a importância do beijo no conjunto completo da obra. Foi assim naquela primeira vez e nas poucas outras que se seguiram.

A química era perfeita, mas o relacionamento impossível. Talvez para deixar ainda mais excitante, tinha de ser proibido, freado. Ela percebeu que não era só uma aventura controlável. Era sim uma paixão daquelas que te consome, toma conta dos seus pensamentos, te faz cometer loucuras por mais que se tente manter os pés no chão.

E agora? Como agir? Ter paciência e discernimento para esperar passar talvez seja a única fórmula. Sim, a maturidade faz com que a gente saiba que as paixôes vêm e vão com a mesma intensidade. Só não é possível prever quanto tempo isso leva, nem como suportar a dor até que tudo se transforme em mais uma bela história de amor do passado, daquelas que sempre valem a pena ser lembradas.



et cetera