O Arranhão da Gata











Tudo começou com a insistência dele. Muita insistência. Era um galanteador por natureza. Já ela estava mais focada em estudar e não dava muita atenção para as investidas dele. Ao menos, não no início.

Um conquistador era a palavra que melhor o definia. Todos os dias ele a elogiava, notava a roupa, as mudanças no cabelo, escrevia seu telefone na agenda dela com um lembrete para ligar, mas ela resistia. Tinha acabado de sair de um relacionamento conturbado e tinha jurado a si mesma, como toda mulher jura, que não entraria em outra roubada. Como se fosse possível evitar isso assim, apenas com essa resolução.

Se tornaram amigos, conversavam todos os dias sobre tudo e aos poucos ela foi cedendo aos encantos dele. Um dia o professor faltou. A classe toda resolveu ir ao cinema e lá ele conseguiu roubar um beijo. Foi naquele dia que ela começou a pensar nele com mais frequência e na possibilidade de baixar a guarda.

Saíram de novo para um cinema na semana seguinte. Dessa vez sozinhos. Trocaram mais que um beijo e conversaram sobre o passado, sobre o que estavam sentindo um pelo outro. Ali começou uma grande paixão.

As paixões costumam ter prazo de validade definido. Dizem que duram no máximo dois ou três anos. Mas quando começa a gente sempre aposta que vai virar amor. Apesar de toda a precaução inicial, foi isso que ela fez.  Apostou.

Eles não se largavam. Se viam todos os dias. Estudavam juntos.  Aproveitavam cada momento e não viam a hora de ficarem sozinhos. Ela ainda estava insegura quanto a ir pra cama com ele, apesar da vontade. Como é comum na juventude, não se importavam muito com a intensidade dos amassos em público, mas claro que queriam mais privacidade.

A decisão veio no terraço de um prédio.  Do alto se via a Av. 23 de maio repleta de carros, mas o barulho das buzinas nem chegava aos ouvidos deles, que estavam enlouquecidos de desejo. Entre muitos beijos, abraços e mãos inquietas , ele disse que não parava de pensar nela, que não aguentava esperar mais.

Ela estava louca, louca por ele, mas não ia transar ali no terraço do prédio. Tinha de ser especial.  No dia seguinte.  Decidido! Seria no dia seguinte. Era uma sexta e não teriam hora pra voltar.

Se encontraram no horário de sempre. Andaram rápido, entraram  discretamente no prédio.  Chaves na mão, subiram as escadas apressados. Ela estava com o coração aos pulos, quase saindo pela boca. Ele disfarçava a ansiedade se fazendo de homem experiente, forte e decidido no auge dos seus 21 anos.

Chegaram ao quarto. Apesar de bem jovens, os dois já tinham tido outras experiências, outros relacionamentos, mas isso não tornou aquele momento menos especial. Ele a fez se sentir a mulher mais desejada do mundo. Não teve pressa. Abusou dos elogios e palavras ao pé do ouvido.

Ela controlou o nervosismo e foi a mulher mais doce e carinhosa que ele já tinha estado. Descobriram que na cama combinavam ainda mais. Ela dormiu no calor dos braços dele e acordou com aquela sensação de felicidade que só quem já sentiu sabe como é.

Depois daquela, ainda passaram muitas noites juntos, viajaram, namoraram, se divertiram. Mas como é comum nas paixões que não viram amor, um dia acabou. Antes pra ele que pra ela. Ela sofreu, chorou, jurou, de novo, não se apaixonar nunca mais.

Claro que depois do “luto” emocional ela se apaixonou outras vezes. Ele também. E quando a dor passou, sobraram as lembranças daquela paixão juvenil, os bons momentos, a nostalgia e a conclusão de que nada na vida é em vão e que toda paixão vale a pena.

Para ler ouvindo Woman in Chains, do Tear for Fears.

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{03/05/2010}   Two Hours

Eles só tinham duas horas pra matar as saudades. Eram só duas horas e tinha de ser naquele dia. Não dava pra prever outra oportunidade. O desejo falava mais alto, mas não dava para negar que também havia afeto, carinho, alguma forma de amor, mesmo que não convencional. Os olhos dela demonstravam isso.

Ele hesitou em aceitar o convite, mas cedeu. Caminharam rapidamente, subiram as escadas e entraram no quarto. Ali dentro eram só os dois. Nada do mundo lá fora. Finalmente os lábios se encontraram num beijo cheio de vontade, seguido de um abraço apertado e de mãos percorrendo os corpos um do outro. Ela estava perdida. Ele sabia como tocá-la, sem dúvidas e nada precisava ser dito.

Naquelas duas horas o tempo voou como é de costume quando se está apaixonado. Na cama era espetacular. Qualquer pessoa sabe quando a outra é perfeita nesse quesito. Sabe quando combina. Mas não era só isso. Não pra ela pelo menos. Eles tinham muito a falar um pro outro. Havia afinidade e um carinho muito grande. Só que ele não assumia o relacionamento. Dizia que não queria nada sério com ninguém e que estava bom assim.

Talvez pra ele fosse só uma paixão casual, mas isso ele também não admitia. Era como se precisasse tê-la à disposição. Poucos pessoas são capazes de admitir que não querem namorar, mas querem deixar a outra num tipo de stand by. Ali disponível para um momento de carência.

A parte mais triste é a falta de sintonia nessa situação. Ele estava confortável, mas ela queria mais. Ela acreditava que com o tempo ele ia ter certeza que ela era perfeita pra ele. Naquelas duas horas ela não pensava nisso. Só queria aproveitar ao máximo aquele momento de prazer. Mas sabia que quando saísse dali bateria a solidão. O que o impedia de ficar com ela por completo? Ela não sabia.

Assim o tempo passou. Os espaços entre os encontros ficaram maiores e um dia ela soube por uma amiga em comum que ele estava namorando sério. Aquele blá blá blá de não querer compromisso era só com ela. Sofreu mais pela falta de consideração pelos sentimentos dela que pela ausência dele, que de algum modo já havia se acostumado. Sobreviveu, mas não esqueceu. Principalmente daqueles encontros rápidos, mas perfeitos. De qualquer forma, era bom lembrar.



{12/04/2010}   Síndrome de Dona Flor

Pela primeira vez ela tinha tomado o grande passo de procurar um terapeuta. Chegou ao consultório pensando se teria coragem de contar a ele coisas que nunca tinha contado a ninguém. Cheia de medos e dúvidas foi tentando se acalmar baseada no fato de que pelo menos não seria alguém que ao ouvi-la iria julgá-la por seus atos.

O terapeuta era jovem – o que deu uma certa segurança a ela – e a recebeu com um sorriso no rosto. Pronto. “Pelo menos era bem humorado”, pensou. Ela começou a contar a ele como nos últimos dois meses sua vida se transformara numa grande mistura de sentimentos contraditórios.

Justamente ela que era veemente contra as traições, que dizia que era impossível se relacionar com duas pessoas ao mesmo tempo, que afirmava que antes de sequer olhar para outra pessoa, só o interesse já era um sinal para se separar, se viu numa situação exatamente assim.

Após um beijo inesperado, um desejo enorme despertou dentro dela. Daí pra cama foi um passo rápido. O mais incompreensível para a cabeça dela era continuar a amar o marido como sempre. Nem cogitava a possibilidade de viver sem ele algum dia na vida. No entanto, gostava muito de estar com o outro.

O que a perturbava de verdade era o medo de ser descoberta já que não tinha lá muita vocação para mentir. Não haveria explicação, nem perdão. Alem disso, lhe atormentava o sentimento de culpa por não sentir tanta culpa em fazer aquilo, por achar que merecia viver aquela aventura por mais que fosse impossível explicar a qualquer pessoa.

Claro que houve uma segunda e uma terceira vez, cada uma melhor que a anterior. Viraria um vício? E se a paixão não passasse? E se seus sentimentos mudassem? Mil dúvidas, angústias e muito desejo à flor da pele.

Para seu alívio, o terapeuta não achou que ela precisasse de uma terapia contínua, apenas se auto-observar para que os sentimentos não evoluíssem para uma tristeza profunda, que a levassem a uma depressão. Embora não haja teorias científicas comprovadas, ela mesma classificou o seu caso como síndrome de Dona Flor.

Sim, era isso. O homem perfeito seria uma fusão dos dois. Ao mesmo tempo em que um não deixara de ser o amor da sua vida, admirável, amigo, amante e companheiro, o outro despertava desejos incontroláveis e era bom viver isso. Era bom lembrar do seu beijo, do seu toque, do seu cheiro. E era difícil resistir.

Ela saiu da sala do terapeuta feliz com a possibilidade de ainda estar com a situação sob controle. No entanto, sabia que a Dona Flor podia viver com os dois por ser um personagem de um livro de Jorge Amado e porque um dos dois maridos naquele caso era apenas espírito. Já ela teria que ter forças e colocar um freio em sua aventura mais dia, menos dia, antes que fosse tarde, muito tarde.



{01/04/2010}   Mais uma vez

Pouco mais de um ano havia se passado desde a última vez que tinham ficado juntos. Foi naquela época que decidiram – meio que ao mesmo tempo e sem combinar – que aquilo estava ficando perigoso. Mantinham a amizade de uma forma natural: se telefonavam, se viam esporadicamente, conversavam, pediam ajuda um ao outro e assim seguia a vida.

Ela pensava muito nele e se esforçava para que aquele sentimento fosse apenas fraterno, mas inevitavelmente pensava nele um pouco mais do que se pensa em um amigo. Em alguns dias doía na alma, em outros era apenas uma lembrança boa. Ambos iam tocando a vida com suas dores e prazeres pessoais.

Foi num desses encontros casuais que voltaram a se envolver. Papo vai, papo vem, e ele ofereceu uma bala. Ela aceitou. Mas a bala que ele ofereceu estava na boca e ele a passou pra ela como fazem os namoradinhos adolescentes num quase beijo. Ela sentiu o rosto queimar. O coração bateu forte, as mãos suaram e ela pensou “ai, meu Deus, de novo isso!”.

Naquele dia ele estava especialmente sensual. Usava um cavanhaque de enlouquecer qualquer mulher (pelo menos as que gostam de cavanhaque!), tinha um perfume bom e aquele olhar sedutor de sempre. Ela usava um decote que deixava parte dos seios  à mostra.  Seios maravilhosos, como ele costumava dizer. Talvez fosse um dia de conspiração universal para o sexo, quem sabe. Ficaram ali conversando, bebendo uma cerveja e seduzindo um ao outro com palavras e olhares.

Na saída, ela hesitou, mas aceitou a carona. Pararam numa rua de pouco movimento, de novo como adolescentes que fogem para um amasso no carro. No banco de trás, ele a puxou para um beijo. O velho e bom beijo que ela já conhecia, mas que ainda a deixava de pernas bambas. Ela se perguntava “por que ele ainda mexe tanto comigo?” enquanto sentia suas mãos firmes a puxando pra si, segurando seus cabelos com força e deslizando a língua pelo seu pescoço. Delícia!

Era quase pra explodir de desejo, mas não iam transar no carro ali no meio da rua. Aí já seria inconsequência demais pra dois adultos, mas naquele dia não dava pra adiar outros compromissos e ir pra outro lugar. Lá fora chovia pra completar o cenário que mistura amor proibido e um pouco de tristeza, além do desejo incontrolável. Trocaram alguns beijos e amassos. Ele sugeriu um novo encontro na semana seguinte, num lugar onde poderiam matar as saudades por completo. Ficou no ar. Hora de ir embora.

Ela saiu caminhando pela chuva como se a chuva pudesse esfriar a mente, o corpo e a alma. Ainda sentia o gosto do beijo dele e o sabor da dúvida se aquele teria sido o último, se um novo encontro aconteceria e até onde isso os levaria. Dúvidas à parte, como era bom ter aquela sensação mesmo correndo o risco de se machucar mais uma vez.



{09/03/2010}   Ele era apenas um menino

Ele era só um menino, um garoto de 18 anos no auge de sua virilidade e juventude. Era o primeiro emprego dele e, graças a sua simpatia, fez amizade rapidamente com todos. Ela  tinha uns sete ou oito anos a mais que ele e era casada. Logo tinha reparado nele, mas apenas achou que o que era bonito era para ser admirado, independente do estado civil de cada um.

Ele já tinha tido algumas namoradinhas, mas nada sério. Também logo a notou. Ela tinha se casado cedo, por opção, com o primeiro namorado. Sempre fora um relacionamento tumultuado e ela havia lutado com unhas e dentes pra se casar, daquelas histórias que viram mais questão de honra que amor propriamente dito. Tinham um tempo de casados, se desentendiam algumas vezes, mas pareciam felizes de um modo geral e acreditavam que tudo estava certo.

Foi num momento de certa crise que ela se apaixonou por aquele mocinho. Ele também se apaixonou por ela num piscar de olhos. Entre o bate-papo, o café na lanchonete, a ida ao outro andar, o beijo aconteceu. Ela não podia acreditar que aquele garoto, bem mais novo, mexesse tanto com ela. Mas depois do beijo teve certeza que aquele sentimento era mais forte e incontrolável do que ela podia imaginar.

Ela começou a ressaltar os defeitos do marido como uma forma de justificar aquela atração, mas no fundo ela sabia que estava se apaixonando perdidamente. O desejo foi crescendo. Os beijos nas escadas ou na casa das máquinas do elevador da empresa se tornaram cada vez mais frequentes, assim como as desculpas para trabalharem juntos em alguma atividade. Tudo isso apesar do medo de serem flagrados e consequentemente demitidos.

Ele só a queria pra ele. Com todo o idealismo e coragem propício da juventude se  julgava capaz de dizer pra ela largar tudo e ficar com ele, morar junto inclusive, como se fosse possível num passe de mágica. E por que não? Ela intimamente sabia que aquilo era um rompante da idade ou pelo menos tentava se convencer disso. Ela não tinha coragem de assumir pra todos que queria deixar o marido pra viver uma paixão com um garoto.

Começou a achar que era apenas um fetiche, uma fantasia, uma atração física e que com uma ida pra cama ao menos uma vez, tudo se resolveria. Arquitetaram um plano, disfarce, carro emprestado, motel afastado. Naquele momento, os dois pareciam adolescentes e não apenas ele. Era agora ou nunca e ela estava disposta a tudo.

O desejo estava à flor da pele para os dois. Tiveram o encontro mais quente e apaixonado de suas vidas. Embora jovem e teoricamente inexperiente, ele a fez se sentir a mulher mais desejada do mundo.O corpo dela tremia só de lembrar daquela primeira vez tão excitante. Aquele garoto se revelou como um homem que sabia como agradar  a uma mulher na cama.  Seu beijo era suave, suas mãos eram firmes.

Outros encontros aconteceram, cada dia melhores,  e eles tentaram levar aquela loucura adiante, mas ninguém consegue manter uma paixão em segredo por tanto tempo. Ela decidiu se separar independente daquela história. Ele se animou com a decisão. Ela realmente se separou, mas decidiu terminar com ele também. “Ele era só um menino”, ela pensava.

Os dois sofreram, como era de se esperar, mas superaram. Nunca mais se viram, nem se falaram. Tocaram suas vidas. Com certeza vão sempre se lembrar da história que viveram com alguma ternura e dor. Ele era só um menino e ela era só uma mulher que viveu uma grande paixão, mesmo que isso fosse difícil de explicar. Um dia contaria aos netos.



Era pra ser só uma aventura, era pra ser só “sexo e amizade” como diz a música. No entanto, razão e paixão são dois sentimentos que não caminham juntos e tolo é aquele que acha que pode sempre ter o controle desse tipo de situação. Foi com esse pensamento de auto-controle que ela achou que era possível  – depois daquele beijo roubado – ter uma noite de amor com ele. Afinal seria a realização de um desejo antigo e depois tudo voltaria ao normal, cada um tocando sua vida e fim.

O beijo foi o ponto de partida e o “problema” é que ele realmente sabia beijar. Daqueles homens que fazem uma mulher ter vontade de ir pra cama com ele só por causa do beijo. Um beijo voraz, mas ao mesmo tempo suave e aconchegante. O vilão foi o beijo. Depois daquele beijo ela não conseguia parar de pensar nele.

Um dia ela tomou coragem e ligou com aquela velha frase  “precisamos conversar sobre o que aconteceu”. Ele hesitou um pouco e disse “preciso levar umas coisas em casa. Então venha comigo e a gente conversa no caminho”. Com o coração aos pulos ela foi ao encontro dele pensando se aquela noite terminaria mesmo só na conversa. No fundo, ela sabia que não.

Ela abriu seu coração sobre o que vinha sentindo depois daquele dia, da vontade, desejo, confusão de sentimentos, enfim, coisas que só uma mulher consegue expressar mesmo que a outra parte não vá entender. Ele pareceu um pouco assustado, mas manifestou um tímido “eu também sinto desejo”. Sim, conversaram bastante e isso foi bom porque tudo parecia muito limpo e claro como nunca havia sido entre os dois.

Ao repetir o beijo, foi inevitável continuar. No limite das carícias, ele disse “agora não dá pra voltar atrás” e ela respondeu “e quem disse que eu quero voltar atrás?”.  Havia o ritmo, havia o toque da pele, havia a sintonia dos corpos, havia a mistura do desejo contido pelo tempo com a sabedoria da maturidade. Perfeito!

Ele sabia como satisfazer uma mulher no sentido mais amplo da palavra satisfação. Sabia esperar o momento certo, sabia escolher o toque e principalmente sabia a importância do beijo no conjunto completo da obra. Foi assim naquela primeira vez e nas poucas outras que se seguiram.

A química era perfeita, mas o relacionamento impossível. Talvez para deixar ainda mais excitante, tinha de ser proibido, freado. Ela percebeu que não era só uma aventura controlável. Era sim uma paixão daquelas que te consome, toma conta dos seus pensamentos, te faz cometer loucuras por mais que se tente manter os pés no chão.

E agora? Como agir? Ter paciência e discernimento para esperar passar talvez seja a única fórmula. Sim, a maturidade faz com que a gente saiba que as paixôes vêm e vão com a mesma intensidade. Só não é possível prever quanto tempo isso leva, nem como suportar a dor até que tudo se transforme em mais uma bela história de amor do passado, daquelas que sempre valem a pena ser lembradas.



{08/03/2010}   O Beijo

Ela já conhecia bem o sabor daquele beijo. Estava guardado em algum lugar da memória e nem ela sabia que ainda era possível se lembrar. Foi numa troca de olhares que a chama daquela paixão antiga se reacendeu, mas ela nem se deu conta no primeiro momento.

Ele fazia o tipo conquistador. Era mais o charme, a voz macia, o perfume, o galanteio em si, que beleza. Por coincidência – se é que elas existem – os dois se encontraram numa casa noturna numa noite dessas. Conversaram muito sobre a vida nos últimos anos, beberam cerveja, curtiram a banda, tudo como bons e velhos amigos.

Ela se sentiu atraída por ele, mas tentou espantar o pensamento. Talvez fosse o lugar, o clima. Talvez fosse a nostalgia ou um pouco de carência. Ele lamentou os amores perdidos e como ela temia, tocou no assunto com um “lembra da gente?”. Obviamente ela se lembrava muito bem, mas tentou fazer de conta que tinha um significado menor e disse “ah, era outro momento das nossas vidas, passou”.

Músicas mais antigas começaram a tocar. Um clima de nostalgia surgiu e eles começaram a cantar junto. Vieram outras mais agitadas e eles começaram a dançar. Foi quando ela sentiu a mão dele na sua cintura e gelou. Por sorte ela estava de costas pra ele e ele não percebeu a sua cara de “isso não está acontecendo!”. Sem saber direito o que fazer, ela segurou as duas mãos dele e continuou dançando.

Ele foi chegando mais perto e ela sentia o calor do corpo dele junto ao seu, mas não se virou. Era uma mistura de medo e desejo. Foi quando ele a virou repentinamente e num segundo os lábios se encontraram. Ela não resistiu e ele a beijou. Foi um beijo intenso, cheio de paixão e desejo. Parecia que não havia mais ninguém em volta e a música ficou ao longe.

Ela ficou de perna bamba, atortoada pelo inusitado daquilo ter acontecido. Ele queria mais beijos e mais que beijos, mas ela ainda estava se refazendo do susto. Ela não teve coragem. Foi como se apesar do desejo, ela conseguisse manter os pés no chão com o pensamento de que aquela história não era mais possível, não agora.

Ele demonstrou frustração na hora de ir embora. “Que dia para estar sem carro!”, pensou. Pegaram o mesmo táxi. Ela querendo chegar em casa e apagar tudo da mente, como se isso fosse possível. Ele na expectativa dela mudar de ideia, roubou mais uns beijos no táxi. Num determinado ponto se despediram, com gostinho de quero mais.

Ela não conseguiu dormir sentindo o gosto do beijo dele. Ele também não. E os dois pensaram:  tudo bem, um dia, de novo, se reencontrariam, quem sabe…sem medos.



et cetera