O Arranhão da Gata











Para ler ouvindo Samba da Benção, composição de Vinícius de Moraes e Baden Powell, na voz de Bebel Gilberto.

Javier Barden e Julia Roberts no filme Comer Rezar Amar

Na última sexta fui assistir Comer Rezar Amar com três amigas, um típico Clube da Luluzinha porque afinal esse é um filme “de meninas”. Inspirado no livro autobiográfico da escritora americana Elizabeth Gilbert, o filme é bem fiel à história com algumas pequenas mudanças que não afetam o roteiro.

Eu li o livro e amei, embora a parte da Índia tenha sido um pouco cansativa para mim. Na sexta estava terminando, mas deixei o finalzinho para ter alguma surpresa no filme.

Eu sou suspeita para falar dos atores simplesmente porque sou fã de carteirinha tanto da linda Julia Roberts, quanto do charmosérrimo Javier Bardem. A história é para e sobre mulheres mesmo, mas os homens que querem entender as crises femininas deveriam assistir.

Praticamente é uma viagem de auto-conhecimento porque além de comer na Itália, rezar na Índia e encontrar um novo amor em Bali, Elizabeth passa, com tudo isso, a saber mais sobre ela mesma, o que é necessário para ser feliz e que isso não tem receita programada.

Toda a crise começa quando ela percebe que, mesmo sendo bem-sucedida profissionalmente e casada, não está feliz. Como assim? Pois é, a receita de sucesso é tão básica que quando alguém atinge essa perfeição aos olhos da sociedade e não está feliz, é severamente questionada e criticada. Como se a pessoa tivesse a obrigação de se sentir feliz só por isso e não pudesse querer mais nada da vida, nem se sentir insatisfeita. É do tipo “pra você tudo já está resolvido e não reclame”.

Acho que o traço mais forte de Liz é a coragem de jogar tudo pro alto. Poucas pessoas fariam isso. Ela pagou um preço alto por conta de um divórcio desgastante e porque quem decide terminar também sofre, embora muita gente não acredite.

Uma vez questionei o sofrimento de uma amiga que queria se separar, mas sofreu quando de fato aconteceu. Ela me explicou que encontrar a metade do armário vazia não significou se arrepender ou sentir saudades dele, mas sim evidenciou o fracasso que havia sido o casamento. E ninguém se casa achando que um dia vai se separar. O empenho é sempre para fazer dar certo e constatar que não deu é sofrido mesmo pra quem deu o primeiro passo rumo à separação.

Eu já tinha viajado junto com a Liz no livro porque a minha imaginação é bem boa nisso. Quando ela descrevia uma pizza na Itália, eu praticamente sentia o sabor. Mas as imagens do filme são fantásticas e dá vontade de sair assim pelo mundo conhecendo outros idiomas, costumes e pessoas com uma realidade tão diferente da nossa. Eu acredito que quando você sai do seu mundinho particular, consegue enxergar um infinito de possibilidades.

Não é segredo pra ninguém que ao final dessa viagem interna e externa, Liz encontra um novo amor (até porque a história é verídica e tanto o livro quanto o filme já foram super comentados) e ainda por cima, brasileiro. Desejo a Liz um amor eterno enquanto dure e sempre com a trilha sonora belíssima do filme. Dá um certo orgulho ouvir músicas brasileiras em um filme  americano.

Nessa minha reflexão sobre o filme e sobre livro, chego à conclusão que todas as pessoas, homens e mulheres, deveriam ter uma experiência assim de se auto-conhecer, seja com uma viagem ou com qualquer outro projeto pessoal, onde pudessem avaliar suas reais necessidades em busca da felicidade.

O maior erro que podemos cometer é achar que a felicidade está no outro e não dentro de nós mesmos. Fica a dica: leia o livro, veja o filme, não necessariamente nessa ordem.

Anúncios


{09/03/2010}   Ele era apenas um menino

Ele era só um menino, um garoto de 18 anos no auge de sua virilidade e juventude. Era o primeiro emprego dele e, graças a sua simpatia, fez amizade rapidamente com todos. Ela  tinha uns sete ou oito anos a mais que ele e era casada. Logo tinha reparado nele, mas apenas achou que o que era bonito era para ser admirado, independente do estado civil de cada um.

Ele já tinha tido algumas namoradinhas, mas nada sério. Também logo a notou. Ela tinha se casado cedo, por opção, com o primeiro namorado. Sempre fora um relacionamento tumultuado e ela havia lutado com unhas e dentes pra se casar, daquelas histórias que viram mais questão de honra que amor propriamente dito. Tinham um tempo de casados, se desentendiam algumas vezes, mas pareciam felizes de um modo geral e acreditavam que tudo estava certo.

Foi num momento de certa crise que ela se apaixonou por aquele mocinho. Ele também se apaixonou por ela num piscar de olhos. Entre o bate-papo, o café na lanchonete, a ida ao outro andar, o beijo aconteceu. Ela não podia acreditar que aquele garoto, bem mais novo, mexesse tanto com ela. Mas depois do beijo teve certeza que aquele sentimento era mais forte e incontrolável do que ela podia imaginar.

Ela começou a ressaltar os defeitos do marido como uma forma de justificar aquela atração, mas no fundo ela sabia que estava se apaixonando perdidamente. O desejo foi crescendo. Os beijos nas escadas ou na casa das máquinas do elevador da empresa se tornaram cada vez mais frequentes, assim como as desculpas para trabalharem juntos em alguma atividade. Tudo isso apesar do medo de serem flagrados e consequentemente demitidos.

Ele só a queria pra ele. Com todo o idealismo e coragem propício da juventude se  julgava capaz de dizer pra ela largar tudo e ficar com ele, morar junto inclusive, como se fosse possível num passe de mágica. E por que não? Ela intimamente sabia que aquilo era um rompante da idade ou pelo menos tentava se convencer disso. Ela não tinha coragem de assumir pra todos que queria deixar o marido pra viver uma paixão com um garoto.

Começou a achar que era apenas um fetiche, uma fantasia, uma atração física e que com uma ida pra cama ao menos uma vez, tudo se resolveria. Arquitetaram um plano, disfarce, carro emprestado, motel afastado. Naquele momento, os dois pareciam adolescentes e não apenas ele. Era agora ou nunca e ela estava disposta a tudo.

O desejo estava à flor da pele para os dois. Tiveram o encontro mais quente e apaixonado de suas vidas. Embora jovem e teoricamente inexperiente, ele a fez se sentir a mulher mais desejada do mundo.O corpo dela tremia só de lembrar daquela primeira vez tão excitante. Aquele garoto se revelou como um homem que sabia como agradar  a uma mulher na cama.  Seu beijo era suave, suas mãos eram firmes.

Outros encontros aconteceram, cada dia melhores,  e eles tentaram levar aquela loucura adiante, mas ninguém consegue manter uma paixão em segredo por tanto tempo. Ela decidiu se separar independente daquela história. Ele se animou com a decisão. Ela realmente se separou, mas decidiu terminar com ele também. “Ele era só um menino”, ela pensava.

Os dois sofreram, como era de se esperar, mas superaram. Nunca mais se viram, nem se falaram. Tocaram suas vidas. Com certeza vão sempre se lembrar da história que viveram com alguma ternura e dor. Ele era só um menino e ela era só uma mulher que viveu uma grande paixão, mesmo que isso fosse difícil de explicar. Um dia contaria aos netos.



et cetera