O Arranhão da Gata











{10/05/2011}   As avós nunca morrem

Eu fui uma típica garotinha criada pela avó. Embora todo mundo ache que isso signifique excesso de mimo, ela me ensinou muito sobre disciplina e caráter. Está certo que ela coava o meu leite e até hoje eu não posso nem ver uma nata no copo, mas isso era só um agrado como ficar ao meu lado quando eu tinha medo antes de dormir ou fazer aquela comidinha que eu mais gostava. Essa era a minha avó materna, a vó Lidia, que morreu quando eu tinha 22 anos, no ano que eu me formei na faculdade. Senti muito por ela não estar aqui na formatura, mas tenho certeza que de algum outro plano ela estava vendo.

Nessa semana perdi a minha avó paterna, vó Djanira, já bem velhinha e debilitada. Por mais que a gente saiba que a morte é algo certo pra todo mundo, sempre que acontece com alguém próximo faz com que a gente se lembre de tudo que viveu com aquela pessoa. Ela morava no Rio de Janeiro e a gente não se via muito, mas dos 14 aos 20 anos eu passei todas as férias na casa dela. O que mais me lembro era do seu bom humor. Ela fazia todas as atividades domésticas cantando. Tinha sempre um rádio como companheiro. Isso era algo em comum nas minhas duas avós.

Também me lembro dela sentada na varanda nos contando as histórias da sua juventude, de como tinha sido enfrentar o preconceito de se casar com um português, sendo uma bela jovem negra. Eu adorava ouvir aquelas histórias todas. Também me admirava com a disposição dela. Nunca vi roupas tão brancas como as que ela lavava, nem tão bem passadas. Ela cortava cana dos pés que havia no fundo do quintal e fazia uma garapa fresquinha pra mim. Eu, que era totalmente urbana e criada em apartamento, adorava essas coisas de quintal, sucos – refrescos, com sotaque carioca, como ela dizia – feitos com frutas tiradas do pé minutos antes.

Um pouco antes de me casar, exatamente há 11 anos, fui visitá-la e contei que ia me casar, que não ia ser um casamento tradicional, que eu ia viajar e que estava muito feliz. Lembro que ela me disse: “minha neta, o que importa é que ele seja um bom marido para você e tenho certeza de que vai ser”. Ela acertou.

Eu tive que dar a notícia ao meu pai de que a mãe dele havia morrido. Isso foi muito triste porque mesmo aos 65 anos ele é um filho e um filho nunca está preparado para o dia da morte de sua mãe. Nós todos esperamos que ela esteja agora num plano melhor, sem sofrimento, sem dores, essas coisas todas que a gente deseja a quem a gente ama.

Agradeço por ter tido o carinho e amor das minhas duas avós. Acho que avós são mesmo anjos sem asas que estão aqui para nos proteger, fazer nossas vontades, dar colo e aliviar um pouco o trabalho das mães. Eu acredito que existe um céu das avós e lá elas continuam olhando pelos netos, mesmo os já crescidinhos como eu.

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{01/08/2010}   Amor de irmão
Para ler ouvindo Pais e Filhos, do Legião Urbana.

No último dia 30 foi aniversário do meu irmão e isso me inspirou a escrever sobre esse tipo de amor, que não vale só para os irmãos de sangue, mas também para os que a gente vai encontrando pelo caminho ao longo da vida. Eu e o meu irmão temos 9 anos de diferença e ter um irmão tão mais novo me fez ser um pouco mãe dele também. Quem tem irmãos mais novos sabe exatamente como é esse sentimento.

Tudo começou quando eu tinha mais ou menos uns 8 anos e fiz uma redação na escola que se chamava “Meu maior desejo”. Lá eu escrevi que o meu maior desejo era ter um irmãozinho, brincar com ele, levá-lo pra escola. Bom, claro que quando a gente é criança a gente pensa que o irmão já vai vir do nosso tamanho pra fazer companhia e brincar. Quando a minha mãe me contou que estava grávida eu fiquei radiante, mas precisava ter paciência para esperar o bebê nascer.

Me lembro exatamente do dia que a minha mãe foi para maternidade. Naquela época as crianças não podiam entrar nos hospitais e eu tive que esperar ansiosamente pela volta dela pra casa. No dia previsto pra ela chegar me esqueceram na escola. Até jantei com as freiras do colégio. O meu tio pensou que a minha avó iria me buscar e ela pensou o mesmo. E eu lá, morrendo de curiosidade para conhecer o bebê. Quando cheguei em casa, subi as escadas correndo. E lá estava ele com um macacãozinho azul e, para minha decepção, dormindo. Ninguém havia me contado que os bebês dormiam tanto!

Daí pra frente eu queria ajudar em tudo e nasceu esse amor de cuidar mesmo do pequeno. E ainda é um pouco assim até hoje porque para os irmãos mais velhos, os menores nunca crescem. Eu imagino que seja um pouco parecido com o sentimento dos pais. Claro que agora ele já é um adulto, vai viver suas próprias experiências. E por mais que o desejo de proteger exista, experiência não se passa e cada um tem que viver a sua. Claro que sempre seremos unidos para o que der e vier.

Como todos os irmãos, nós já brigamos muito por todas as bobagens possíveis (bagunça no armário, a vez de lavar louça, barulho), principalmente quando ainda morávamos na mesma casa. Mas sempre tivemos o pacto de pedir desculpas antes de dormir. E essa é uma lei que todo mundo devia adotar nessa vida. Nunca se deve dormir brigado com ninguém, muito menos com o irmão.

Nós conhecemos duas irmãs, senhorinhas, e com a mesma diferença de idade que nós dois. Na época uma tinha 81 e a outra 90 anos. A mais velha sempre ligava pra mais nova ir comprar pão pra ela só porque ela era mais nova. Sempre me lembro das duas com carinho e eu espero que com a gente seja assim também.Temos uma forte ligação espiritual, que vai além dos nossos laços de sangue. Um sabe que sempre pode contar com o outro. Mesmo sendo mais novo, ele também já me deu muita força nos momentos difíceis.

Eu não estranho irmãos que discutam ou discordem porque isso faz parte do convívio, mas estranho muito irmãos que não se falam, que não se ajudam ou que não dividem as responsabilidades com os pais. Amor de irmão é um sentimento muito forte mesmo e deve ser preservado.

Tem também os irmãos que não são de sangue, que a gente elege pelo sentimento. Eu tenho um amigo-irmão, que posso compartilhar tudo, mesmo que a gente não se veja com frequência. Ele é muito querido e sei que ele também me considera sua irmãzinha. Além dele, também tenho umas seis amigas que são como irmãs, daquelas pra todas as horas mesmo, seja pra diversão, seja para desabafar, ir junto ao médico ou até mesmo cobrir o cheque especial numa emergência.

Outra pessoa que também é uma irmã no meu coração é a irmã do meu marido. Como temos quase a mesma idade, isso nos possibilitou compartilhar muitas coisas, desde algumas baladinhas quando éramos mais novinhas até dicas de roupas, decoração, liquidações. Sem contar os dilemas naturais de cada uma com a vida, a carreira, o futuro. Agora ela vai me dar um sobrinho (ou sobrinha) e é aí que o amor se renova, tão forte quanto o de irmãos. Como diz a letra da música que sugeri como trilha sonora no início do post: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã porque se você parar pra pensar, na verdade não há”. Fica a dica!



et cetera