O Arranhão da Gata











{01/09/2011}   Um quase amor

Para ler ouvindo Gimme Gimme Gimme, de Narada Michael Walden & Patti Austin ‘1985.

Quando ele veio morar na rua da casa dela devia ter uns 15 anos e já chegou chamando atenção. Ela, aos 13 anos, ainda estava acostumada a ver os meninos meio que como inimigos, mas com ele foi diferente. Talvez tenha sido o seu primeiro amigo do sexo oposto. Ele era comunicativo, o amigo de todo mundo, inclusive das meninas. E, além de tudo, era bonito: moreno, olhos negros e sorriso largo.

Não demorou muito para que todas as meninas da rua se apaixonassem por ele. Ela não sabia se aquilo era paixão, achava que não, mas gostava de estar na companhia dele. Ele começou a namorar uma garota da rua, que era um pouco mais velha. Ela não se incomodou muito com isso porque ficaram muito, muito amigos. Passavam horas conversando sobre o que queriam da vida, sobre o futuro, sobre música e inclusive sobre o amor. Aquilo era uma amizade de verdade, um quase amor, entre dois jovens.

Em alguns momentos ela achava que era mais que amizade, mas espantava esse pensamento porque afinal ele tinha namorada. Mas gostava de dançar com ele, de dar risada, de ficar ali deixando o tempo passar. Em cada uma das festinhas da turma, ela esperava pela sua vez de dançar com ele. Ele fazia questão de dançar não só com ela, mas com todas as garotas da festa, já que os outros garotos não tinham muita habilidade.

Um dia a família dele decidiu se mudar de cidade e num tempo em que não existia a internet, isso era mesmo uma notícia bombástica. Toda a turma ficou triste e ele também, mas não tinha outro jeito. O namoro dele acabou porque um namoro a distância naquela época era impossível.

Toda a turma organizou uma festa de despedida bem legal para celebrar a amizade. No dia da festa, ele pediu que ela ficasse até o fim para ajudá-lo a arrumar tudo e que ele a levaria em casa depois. Ela ficou. Ajudou a recolher os cartazes, os presentes. Tudo que ele levaria como lembranças daquele tempo e daquelas pessoas para a sua nova vida.

Na porta de casa trocaram um longo abraço e um selinho. Não foi um beijo de verdade, mas foi algo marcante.No dia seguinte ele viajou. Trocaram cartas por muitos anos, mas nunca mais se viram. Acabaram perdendo o contato com o passar do tempo e mudanças de endereços. Só ficou a lembrança daquela amizade ou quase amor.

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{06/09/2010}   Último encontro

Para ler ouvindo Bem que se quis, de Marisa Monte.

Aquele encontro numa manhã de quinta-feira seria o último, mas eles não haviam planejado isso. Não teve tom de despedida, mas o destino se encarregou de dar um novo rumo para a vida de ambos, de modo que tudo acabasse, sem muitas explicações, como acontece quando se acorda de um sonho bom.

Para ela, ele era o amor da vida toda, entre muitos encontros e desencontros, intervalos, outros amores. Ela era pra ele a mulher ideal, mas inalcançável. Não conseguiam ter um relacionamento normal, apesar do sentimento recíproco. Só dava certo quando era proibido e quando deixava de ser, não dava mais.

Naquela manhã quente de novembro marcaram um encontro num hotel. Encontro esse que vinha sendo apimentado pela dificuldade de se concretizar. Trocavam mensagens sobre a expectativa que o dia possível chegasse com insinuações provocantes. Alimentar tudo isso era ainda mais excitante que o dia em si.

Finalmente a agenda bateu. Tinha de ser cedo. Depois cada um iria para o seu trabalho. Ele chegou primeiro, escolheu o quarto, pegou as chaves e esperou por ela. Os dois tinham muita afinidade e a química na cama era perfeita. Ele já tinha tido muitas mulheres, mas com ela era fantástico. Um sabia exatamente como agradar ao outro sem que fosse preciso dizer nada.

Ela chegou meia hora depois. Óculos escuros, passos rápidos. Deixou o documento, subiu as escadas, abriu a porta já destrancada. Reclamou do calor e ele brincou dizendo que ainda gostava dela mesmo assim suada. Se beijaram demoradamente e era sempre como a primeira vez. Ela dizia que ele tinha o beijo certo, o número dela.

Por mais pressa que tivessem, se amaram devagar. Ela intercalava as carícias com pequenas declarações de amor. Ele sentia prazer em perceber o prazer que dava a ela. Talvez se soubessem que seria o último encontro, tivessem dito mais coisas um ao outro. Mas como não sabiam, se concentraram em aproveitar o momento da melhor forma.

Como costuma acontecer a todos os casais apaixonados, o tempo passou rápido. Ainda deu tempo para um banho juntos. Nessa hora bateu uma tristeza. A tristeza do desencontro de não poderem estar juntos o tempo que quisessem. Muita coisa não dependia só da vontade. Só em amor de novela tudo é possível, mas ali era a vida real.

Ela foi embora antes. Ele ainda ficou por lá relembrando cada momento. Ele já vinha pensando, mas não tinha decidido. Por isso não tinha dito a ela que não se veriam mais. Mas era melhor assim, sem despedidas. Chorou sozinho. No caminho, ainda deu um telefonema para dizer que tinha tido uma manhã maravilhosa, inesquecível. Ela disse que pra ela também havia sido. Desligaram.

Depois disso não se encontraram mais. Ele sempre vinha com a desculpa de que não dava por causa do horário de trabalho. Como algumas coisas na vida não precisam ser ditas explicitamente, ela acabou entendendo que era melhor assim. De tudo que viveram, ficou a saudade.



{12/04/2010}   Síndrome de Dona Flor

Pela primeira vez ela tinha tomado o grande passo de procurar um terapeuta. Chegou ao consultório pensando se teria coragem de contar a ele coisas que nunca tinha contado a ninguém. Cheia de medos e dúvidas foi tentando se acalmar baseada no fato de que pelo menos não seria alguém que ao ouvi-la iria julgá-la por seus atos.

O terapeuta era jovem – o que deu uma certa segurança a ela – e a recebeu com um sorriso no rosto. Pronto. “Pelo menos era bem humorado”, pensou. Ela começou a contar a ele como nos últimos dois meses sua vida se transformara numa grande mistura de sentimentos contraditórios.

Justamente ela que era veemente contra as traições, que dizia que era impossível se relacionar com duas pessoas ao mesmo tempo, que afirmava que antes de sequer olhar para outra pessoa, só o interesse já era um sinal para se separar, se viu numa situação exatamente assim.

Após um beijo inesperado, um desejo enorme despertou dentro dela. Daí pra cama foi um passo rápido. O mais incompreensível para a cabeça dela era continuar a amar o marido como sempre. Nem cogitava a possibilidade de viver sem ele algum dia na vida. No entanto, gostava muito de estar com o outro.

O que a perturbava de verdade era o medo de ser descoberta já que não tinha lá muita vocação para mentir. Não haveria explicação, nem perdão. Alem disso, lhe atormentava o sentimento de culpa por não sentir tanta culpa em fazer aquilo, por achar que merecia viver aquela aventura por mais que fosse impossível explicar a qualquer pessoa.

Claro que houve uma segunda e uma terceira vez, cada uma melhor que a anterior. Viraria um vício? E se a paixão não passasse? E se seus sentimentos mudassem? Mil dúvidas, angústias e muito desejo à flor da pele.

Para seu alívio, o terapeuta não achou que ela precisasse de uma terapia contínua, apenas se auto-observar para que os sentimentos não evoluíssem para uma tristeza profunda, que a levassem a uma depressão. Embora não haja teorias científicas comprovadas, ela mesma classificou o seu caso como síndrome de Dona Flor.

Sim, era isso. O homem perfeito seria uma fusão dos dois. Ao mesmo tempo em que um não deixara de ser o amor da sua vida, admirável, amigo, amante e companheiro, o outro despertava desejos incontroláveis e era bom viver isso. Era bom lembrar do seu beijo, do seu toque, do seu cheiro. E era difícil resistir.

Ela saiu da sala do terapeuta feliz com a possibilidade de ainda estar com a situação sob controle. No entanto, sabia que a Dona Flor podia viver com os dois por ser um personagem de um livro de Jorge Amado e porque um dos dois maridos naquele caso era apenas espírito. Já ela teria que ter forças e colocar um freio em sua aventura mais dia, menos dia, antes que fosse tarde, muito tarde.



{01/04/2010}   Mais uma vez

Pouco mais de um ano havia se passado desde a última vez que tinham ficado juntos. Foi naquela época que decidiram – meio que ao mesmo tempo e sem combinar – que aquilo estava ficando perigoso. Mantinham a amizade de uma forma natural: se telefonavam, se viam esporadicamente, conversavam, pediam ajuda um ao outro e assim seguia a vida.

Ela pensava muito nele e se esforçava para que aquele sentimento fosse apenas fraterno, mas inevitavelmente pensava nele um pouco mais do que se pensa em um amigo. Em alguns dias doía na alma, em outros era apenas uma lembrança boa. Ambos iam tocando a vida com suas dores e prazeres pessoais.

Foi num desses encontros casuais que voltaram a se envolver. Papo vai, papo vem, e ele ofereceu uma bala. Ela aceitou. Mas a bala que ele ofereceu estava na boca e ele a passou pra ela como fazem os namoradinhos adolescentes num quase beijo. Ela sentiu o rosto queimar. O coração bateu forte, as mãos suaram e ela pensou “ai, meu Deus, de novo isso!”.

Naquele dia ele estava especialmente sensual. Usava um cavanhaque de enlouquecer qualquer mulher (pelo menos as que gostam de cavanhaque!), tinha um perfume bom e aquele olhar sedutor de sempre. Ela usava um decote que deixava parte dos seios  à mostra.  Seios maravilhosos, como ele costumava dizer. Talvez fosse um dia de conspiração universal para o sexo, quem sabe. Ficaram ali conversando, bebendo uma cerveja e seduzindo um ao outro com palavras e olhares.

Na saída, ela hesitou, mas aceitou a carona. Pararam numa rua de pouco movimento, de novo como adolescentes que fogem para um amasso no carro. No banco de trás, ele a puxou para um beijo. O velho e bom beijo que ela já conhecia, mas que ainda a deixava de pernas bambas. Ela se perguntava “por que ele ainda mexe tanto comigo?” enquanto sentia suas mãos firmes a puxando pra si, segurando seus cabelos com força e deslizando a língua pelo seu pescoço. Delícia!

Era quase pra explodir de desejo, mas não iam transar no carro ali no meio da rua. Aí já seria inconsequência demais pra dois adultos, mas naquele dia não dava pra adiar outros compromissos e ir pra outro lugar. Lá fora chovia pra completar o cenário que mistura amor proibido e um pouco de tristeza, além do desejo incontrolável. Trocaram alguns beijos e amassos. Ele sugeriu um novo encontro na semana seguinte, num lugar onde poderiam matar as saudades por completo. Ficou no ar. Hora de ir embora.

Ela saiu caminhando pela chuva como se a chuva pudesse esfriar a mente, o corpo e a alma. Ainda sentia o gosto do beijo dele e o sabor da dúvida se aquele teria sido o último, se um novo encontro aconteceria e até onde isso os levaria. Dúvidas à parte, como era bom ter aquela sensação mesmo correndo o risco de se machucar mais uma vez.



Era pra ser só uma aventura, era pra ser só “sexo e amizade” como diz a música. No entanto, razão e paixão são dois sentimentos que não caminham juntos e tolo é aquele que acha que pode sempre ter o controle desse tipo de situação. Foi com esse pensamento de auto-controle que ela achou que era possível  – depois daquele beijo roubado – ter uma noite de amor com ele. Afinal seria a realização de um desejo antigo e depois tudo voltaria ao normal, cada um tocando sua vida e fim.

O beijo foi o ponto de partida e o “problema” é que ele realmente sabia beijar. Daqueles homens que fazem uma mulher ter vontade de ir pra cama com ele só por causa do beijo. Um beijo voraz, mas ao mesmo tempo suave e aconchegante. O vilão foi o beijo. Depois daquele beijo ela não conseguia parar de pensar nele.

Um dia ela tomou coragem e ligou com aquela velha frase  “precisamos conversar sobre o que aconteceu”. Ele hesitou um pouco e disse “preciso levar umas coisas em casa. Então venha comigo e a gente conversa no caminho”. Com o coração aos pulos ela foi ao encontro dele pensando se aquela noite terminaria mesmo só na conversa. No fundo, ela sabia que não.

Ela abriu seu coração sobre o que vinha sentindo depois daquele dia, da vontade, desejo, confusão de sentimentos, enfim, coisas que só uma mulher consegue expressar mesmo que a outra parte não vá entender. Ele pareceu um pouco assustado, mas manifestou um tímido “eu também sinto desejo”. Sim, conversaram bastante e isso foi bom porque tudo parecia muito limpo e claro como nunca havia sido entre os dois.

Ao repetir o beijo, foi inevitável continuar. No limite das carícias, ele disse “agora não dá pra voltar atrás” e ela respondeu “e quem disse que eu quero voltar atrás?”.  Havia o ritmo, havia o toque da pele, havia a sintonia dos corpos, havia a mistura do desejo contido pelo tempo com a sabedoria da maturidade. Perfeito!

Ele sabia como satisfazer uma mulher no sentido mais amplo da palavra satisfação. Sabia esperar o momento certo, sabia escolher o toque e principalmente sabia a importância do beijo no conjunto completo da obra. Foi assim naquela primeira vez e nas poucas outras que se seguiram.

A química era perfeita, mas o relacionamento impossível. Talvez para deixar ainda mais excitante, tinha de ser proibido, freado. Ela percebeu que não era só uma aventura controlável. Era sim uma paixão daquelas que te consome, toma conta dos seus pensamentos, te faz cometer loucuras por mais que se tente manter os pés no chão.

E agora? Como agir? Ter paciência e discernimento para esperar passar talvez seja a única fórmula. Sim, a maturidade faz com que a gente saiba que as paixôes vêm e vão com a mesma intensidade. Só não é possível prever quanto tempo isso leva, nem como suportar a dor até que tudo se transforme em mais uma bela história de amor do passado, daquelas que sempre valem a pena ser lembradas.



{08/03/2010}   O Beijo

Ela já conhecia bem o sabor daquele beijo. Estava guardado em algum lugar da memória e nem ela sabia que ainda era possível se lembrar. Foi numa troca de olhares que a chama daquela paixão antiga se reacendeu, mas ela nem se deu conta no primeiro momento.

Ele fazia o tipo conquistador. Era mais o charme, a voz macia, o perfume, o galanteio em si, que beleza. Por coincidência – se é que elas existem – os dois se encontraram numa casa noturna numa noite dessas. Conversaram muito sobre a vida nos últimos anos, beberam cerveja, curtiram a banda, tudo como bons e velhos amigos.

Ela se sentiu atraída por ele, mas tentou espantar o pensamento. Talvez fosse o lugar, o clima. Talvez fosse a nostalgia ou um pouco de carência. Ele lamentou os amores perdidos e como ela temia, tocou no assunto com um “lembra da gente?”. Obviamente ela se lembrava muito bem, mas tentou fazer de conta que tinha um significado menor e disse “ah, era outro momento das nossas vidas, passou”.

Músicas mais antigas começaram a tocar. Um clima de nostalgia surgiu e eles começaram a cantar junto. Vieram outras mais agitadas e eles começaram a dançar. Foi quando ela sentiu a mão dele na sua cintura e gelou. Por sorte ela estava de costas pra ele e ele não percebeu a sua cara de “isso não está acontecendo!”. Sem saber direito o que fazer, ela segurou as duas mãos dele e continuou dançando.

Ele foi chegando mais perto e ela sentia o calor do corpo dele junto ao seu, mas não se virou. Era uma mistura de medo e desejo. Foi quando ele a virou repentinamente e num segundo os lábios se encontraram. Ela não resistiu e ele a beijou. Foi um beijo intenso, cheio de paixão e desejo. Parecia que não havia mais ninguém em volta e a música ficou ao longe.

Ela ficou de perna bamba, atortoada pelo inusitado daquilo ter acontecido. Ele queria mais beijos e mais que beijos, mas ela ainda estava se refazendo do susto. Ela não teve coragem. Foi como se apesar do desejo, ela conseguisse manter os pés no chão com o pensamento de que aquela história não era mais possível, não agora.

Ele demonstrou frustração na hora de ir embora. “Que dia para estar sem carro!”, pensou. Pegaram o mesmo táxi. Ela querendo chegar em casa e apagar tudo da mente, como se isso fosse possível. Ele na expectativa dela mudar de ideia, roubou mais uns beijos no táxi. Num determinado ponto se despediram, com gostinho de quero mais.

Ela não conseguiu dormir sentindo o gosto do beijo dele. Ele também não. E os dois pensaram:  tudo bem, um dia, de novo, se reencontrariam, quem sabe…sem medos.



et cetera