O Arranhão da Gata











{27/09/2010}   De volta aos Anos 80

Para ler ouvindo A Little Respect, do Erasure.

Relembrar os tempos da adolescência é algo que eu costumo fazer com frequência.  Não que tenha sido uma maravilha e eu gosto muito mais da pessoa que sou hoje, mas claro que a nostalgia faz parte da vida. Talvez eu até exagere no saudosismo e isso seja um traço de envelhecimento mesmo, quem sabe.

Praticamente todos os momentos da minha vida têm trilha sonora e a música sempre foi algo bem marcante pra mim. Foi por esse motivo que topei conhecer uma baladinha que toca músicas dos anos 80, o Mary Pop. Fui lá duas vezes. Uma com os meus amigos da adolescência que compartilharam justamente esse período da vida comigo e outra, recentemente, com uma amiga já da fase adulta, mas que tem a mesma idade.

Pode parecer um pouco ridículo sair pra dançar e ouvir as mesmas músicas de mais de 20 anos atrás, mas quem viveu aquela época com certeza vai gostar. É bem divertido.  A festa é comandada pelo DJ Silvio Ribeiro, do programa Energia na Véia, da rádio 97 FM. O mais bacana desse tipo de balada é perceber que ainda é possível lembrar os passos e as letras das músicas, mesmo daquelas que você não ouve faz tempo.

Agora não dá pra negar que rememorar tudo isso é mesmo uma viagem ao passado. Me lembrei da primeira vez que eu saí pra dançar. Eu tinha 13 anos e fui a uma domingueira, aquelas baladinhas de domingo à tarde, bem comum para quem ainda era menor de idade. O lugar se chamava PopCorn e ficava na Vila Maria, zona norte de São Paulo. Tinha luzes coloridas, grandes sofás e tocava tudo que a gente gostava, desde o pop rock nacional até os hits internacionais do momento, sem faltar a seleção de lentas pra dançar juntinho.

Embora eu não fosse nenhuma super dançarina, eu gostava muito desse tipo de programa e, claro, tinha que ser com a turma, sempre. Em alguns lugares a gente “batia cartão” (expressão usada quando se ia toda semana ao mesmo lugar), como a Broadway, na Barra Funda ou a Contramão, no Tatuapé. Em outros íamos pra conhecer, como a Over Nigh, na Mooca, a Up and Down, nos Jardins, a Vênus, em Santana e até mesmo a Rhapsody, em Osasco (a minha mãe sempre soube onde eu estava, mas a minha avó arrancaria os cabelos com essas revelações).

Como eu morava no centro da cidade, mais próximo da Santa Cecília, também frequentei por muito tempo o Opinião, que depois virou Halloween. Lá era praticamente um salão alugado por dois amigos nossos que faziam as vezes de DJ, mas a gente também se divertia muito. Quando somos adolescentes tudo é mais intenso: os amores, as amizades, as tristezas e as alegrias. E eu fico feliz em dizer hoje que tenho mais lembranças boas que ruins desse período e sempre, claro, com alguma música associada.

Outra diferença que vejo para os tempos atuais é que a gente tinha muito mais facilidade para sair. Não era preciso ter muito dinheiro. Normalmente íamos de ônibus e não morríamos de medo disso. Não havia celular para o monitoramento constante dos pais. Bastava dizer onde, a que horas e com quem íamos estar e era preciso que os pais acreditassem para deixar a gente ir.

Era comum também mulher não pagar entrada e como eu tomava no máximo um refrigerante, a diversão era garantida com pouco dinheiro. A gente não tinha computador em casa, nem comunicação instantânea (eu não tinha nem telefone nessa época e era adepta das cartelas de fichas telefônicas para ligar para os amigos), mas estávamos sempre em contato com os amigos. Não me lembro de passar um único final de semana em casa porque mesmo pra estudar a gente se encontrava uns nas casas dos outros.

Eu sou super a favor do progresso e da modernidade tecnológica, mas me incomoda um pouco a vida virtual que os adolescentes de hoje têm. Talvez o crescimento da violência seja o culpado e isso me entristece porque eles nunca vão saber como era bacana passar na casa de um amigo e decidir pra onde ir, não falar com a mãe a cada passo dado, não precisar de muita grana pra se divertir, nem do celular ou notebook último tipo para ser feliz.

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Um dia ela acordou, olhou pra ele ainda adormecido e não sentiu a mesma ternura de antes. Incrivelmente pensou em empurrá-lo e dizer “saia da minha cama, por favor”. Lá se iam 17 anos juntos entre namoro e o casamento. Ela ainda muito jovem, ele quase dez anos mais velho. Mas no começo, isso era o máximo.

Ela se arrependia sim de ter casado jovem, de não ter ido pra balada, de não ter viajado mais, de não ter namorado outros. Mas por que só agora batia esse arrependimento? Seria a crise dos 30? Ah, mas ele era tão bom. Nada nele havia mudado, mas agora incomodava. Assim, simples assim.

Se levantou, preparou o café e pensou que talvez fosse uma noite mal dormida, um dia ruim, quem sabe, a TPM maldita. Olhou pra casa, pra tudo que haviam construído juntos, pras crianças (ah, isso sim tinha valido a pena) e pensou que devia estar ficando louca. Como era difícil admitir o fim!

Não havia briga, nem traição. Como explicar? Ela mesma não sabia, mas sentia uma vontade incessante de ver o mundo lá fora, de conhecer outras pessoas, outros amores, uma paixão louca talvez, mas como explicar pros amigos, pra família, pras crianças e principalmente, pra ele. Ela queria um pouco de romantismo. Mas ele nunca havia sido assim…

No banho continuou pensando em como dizer a ele agora mesmo, sem nenhum minuto a mais “quero que você vá embora”. Saiu do banho, olhou pra ele adormecido novamente, se encheu de coragem, o chamou e disse “tchau, já estou indo trabalhar”. E lá se foi ela pensando no fim, simplesmente no fim, mais uma vez sem dizer nada a ele. Apenas isso.



et cetera