O Arranhão da Gata











Para ler ouvindo Ponto de Mutação, do Cidade Negra.

Patagônia

Ela era uma garota sonhadora, moderna, responsável e fazia parte do grupo de mulheres que sonha em encontrar um par, mesmo sabendo que nenhum seria 100% perfeito (aqui um parênteses para perguntar: será que existe alguma  mulher que realmente não quer isso?).  Já tinha tido um namoro longo, daqueles que quase vira casamento, com direito a compras em comum, mas acabou.

Depois disso, ela mesma admitia que havia sido melhor assim porque nenhuma mulher deve mesmo se casar com o seu primeiro amor. Isso quase nunca dá certo, com raríssimas exceções.

Estar de bem com a vida era seu lema. Gostava de viajar, de fazer trilhas, de baladinhas para dançar e de estar sempre com os amigos. Também gostava de estar em família e era fã número um de seu pai. A vida de solteira era muito boa, mas ela continuava querendo encontrar alguém especial. Conheceu um cara bacana. Tinham algumas afinidades e engataram um namoro.

Durou pouco. Ele não teve muita sensibilidade para segurar a onda quando ela perdeu o pai e o relacionamento acabou. Perder o pai ou a mãe nunca é fácil pra ninguém, em nenhuma fase da vida, ainda mais para filhos únicos que não têm muito com quem dividir a tristeza nessa hora.

Foi difícil, mas ela superou mais uma vez. Cuidou de tudo que era necessário e quando a vida estava voltando ao ritmo normal conheceu um novo namorado. Ele era gente boa. Tinham a mesma profissão e ainda mais afinidades. Será que agora era “o cara”? Ainda não era. Foi um relacionamento de média duração, com muitas coisas boas, mas esfriou e virou amizade.

Os últimos dois anos foram tumultuados e ela estava em um daqueles momentos em que é preciso dar uma grande virada na vida.  Já estava ficando cansada de encontros e desencontros. Era final de ano e ela conseguiu uma semana de folga que incluía o réveillon. Perfeito. Precisava viajar, arejar a  mente e começar o novo ano com o pé direito.

Escolheu uma viagem para a Patagônia (na parte sul da Argentina e do Chile), bem rústica, com direito a caminhadas e a dormir em barracas de um acampamento. Os amigos não acreditaram. Parecia mesmo uma ideia maluca. Como assim viajar sozinha no ano novo, quando a maioria das pessoas quer estar rodeada de gente? Como assim ir para um lugar frio, sozinha? Mas ela não gostava mesmo de fazer o que todo mundo fazia, nem de seguir padrões. E lá foi ela para sua aventura.

Foi uma viagem maravilhosa. O lugar era fantástico. A maioria das pessoas do grupo também estava sozinha e um rapaz em especial era bem interessante. Conversaram muito e começaram ali o que prometia ser uma grande  amizade. Para sua surpresa, ele era da mesma cidade que ela e assim seria mais fácil manter contato.

O que era pra ser uma grande amizade virou um amor de novela. A vontade de ficar junto ficou cada vez maior e o relacionamento se tornou sério. Agora sim. Esse era “o cara”. Foi quando veio uma transferência de cidade no trabalho. Algo que ela mesma havia pedido meses antes de conhecê-lo. E agora? Queria muito ir, mas não queria deixá-lo.

Mais uma vez ele a surprendeu. Disse que ia junto, claro! Arranjaria um novo trabalho lá e que estava tudo certo. Dessa conversa para marcarem o casamento foi um passo. Foi uma festa linda, com direito a véu, grinalda, valsa, família e amigos reunidos. O tempo passou e eles estão juntos, felizes, com um casal de filhos fofos. E como diz aquela música do Legião Urbana, “a nossa amizade dá saudades no verão…”.

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{06/09/2010}   Último encontro

Para ler ouvindo Bem que se quis, de Marisa Monte.

Aquele encontro numa manhã de quinta-feira seria o último, mas eles não haviam planejado isso. Não teve tom de despedida, mas o destino se encarregou de dar um novo rumo para a vida de ambos, de modo que tudo acabasse, sem muitas explicações, como acontece quando se acorda de um sonho bom.

Para ela, ele era o amor da vida toda, entre muitos encontros e desencontros, intervalos, outros amores. Ela era pra ele a mulher ideal, mas inalcançável. Não conseguiam ter um relacionamento normal, apesar do sentimento recíproco. Só dava certo quando era proibido e quando deixava de ser, não dava mais.

Naquela manhã quente de novembro marcaram um encontro num hotel. Encontro esse que vinha sendo apimentado pela dificuldade de se concretizar. Trocavam mensagens sobre a expectativa que o dia possível chegasse com insinuações provocantes. Alimentar tudo isso era ainda mais excitante que o dia em si.

Finalmente a agenda bateu. Tinha de ser cedo. Depois cada um iria para o seu trabalho. Ele chegou primeiro, escolheu o quarto, pegou as chaves e esperou por ela. Os dois tinham muita afinidade e a química na cama era perfeita. Ele já tinha tido muitas mulheres, mas com ela era fantástico. Um sabia exatamente como agradar ao outro sem que fosse preciso dizer nada.

Ela chegou meia hora depois. Óculos escuros, passos rápidos. Deixou o documento, subiu as escadas, abriu a porta já destrancada. Reclamou do calor e ele brincou dizendo que ainda gostava dela mesmo assim suada. Se beijaram demoradamente e era sempre como a primeira vez. Ela dizia que ele tinha o beijo certo, o número dela.

Por mais pressa que tivessem, se amaram devagar. Ela intercalava as carícias com pequenas declarações de amor. Ele sentia prazer em perceber o prazer que dava a ela. Talvez se soubessem que seria o último encontro, tivessem dito mais coisas um ao outro. Mas como não sabiam, se concentraram em aproveitar o momento da melhor forma.

Como costuma acontecer a todos os casais apaixonados, o tempo passou rápido. Ainda deu tempo para um banho juntos. Nessa hora bateu uma tristeza. A tristeza do desencontro de não poderem estar juntos o tempo que quisessem. Muita coisa não dependia só da vontade. Só em amor de novela tudo é possível, mas ali era a vida real.

Ela foi embora antes. Ele ainda ficou por lá relembrando cada momento. Ele já vinha pensando, mas não tinha decidido. Por isso não tinha dito a ela que não se veriam mais. Mas era melhor assim, sem despedidas. Chorou sozinho. No caminho, ainda deu um telefonema para dizer que tinha tido uma manhã maravilhosa, inesquecível. Ela disse que pra ela também havia sido. Desligaram.

Depois disso não se encontraram mais. Ele sempre vinha com a desculpa de que não dava por causa do horário de trabalho. Como algumas coisas na vida não precisam ser ditas explicitamente, ela acabou entendendo que era melhor assim. De tudo que viveram, ficou a saudade.



et cetera