O Arranhão da Gata











{01/04/2010}   Mais uma vez

Pouco mais de um ano havia se passado desde a última vez que tinham ficado juntos. Foi naquela época que decidiram – meio que ao mesmo tempo e sem combinar – que aquilo estava ficando perigoso. Mantinham a amizade de uma forma natural: se telefonavam, se viam esporadicamente, conversavam, pediam ajuda um ao outro e assim seguia a vida.

Ela pensava muito nele e se esforçava para que aquele sentimento fosse apenas fraterno, mas inevitavelmente pensava nele um pouco mais do que se pensa em um amigo. Em alguns dias doía na alma, em outros era apenas uma lembrança boa. Ambos iam tocando a vida com suas dores e prazeres pessoais.

Foi num desses encontros casuais que voltaram a se envolver. Papo vai, papo vem, e ele ofereceu uma bala. Ela aceitou. Mas a bala que ele ofereceu estava na boca e ele a passou pra ela como fazem os namoradinhos adolescentes num quase beijo. Ela sentiu o rosto queimar. O coração bateu forte, as mãos suaram e ela pensou “ai, meu Deus, de novo isso!”.

Naquele dia ele estava especialmente sensual. Usava um cavanhaque de enlouquecer qualquer mulher (pelo menos as que gostam de cavanhaque!), tinha um perfume bom e aquele olhar sedutor de sempre. Ela usava um decote que deixava parte dos seios  à mostra.  Seios maravilhosos, como ele costumava dizer. Talvez fosse um dia de conspiração universal para o sexo, quem sabe. Ficaram ali conversando, bebendo uma cerveja e seduzindo um ao outro com palavras e olhares.

Na saída, ela hesitou, mas aceitou a carona. Pararam numa rua de pouco movimento, de novo como adolescentes que fogem para um amasso no carro. No banco de trás, ele a puxou para um beijo. O velho e bom beijo que ela já conhecia, mas que ainda a deixava de pernas bambas. Ela se perguntava “por que ele ainda mexe tanto comigo?” enquanto sentia suas mãos firmes a puxando pra si, segurando seus cabelos com força e deslizando a língua pelo seu pescoço. Delícia!

Era quase pra explodir de desejo, mas não iam transar no carro ali no meio da rua. Aí já seria inconsequência demais pra dois adultos, mas naquele dia não dava pra adiar outros compromissos e ir pra outro lugar. Lá fora chovia pra completar o cenário que mistura amor proibido e um pouco de tristeza, além do desejo incontrolável. Trocaram alguns beijos e amassos. Ele sugeriu um novo encontro na semana seguinte, num lugar onde poderiam matar as saudades por completo. Ficou no ar. Hora de ir embora.

Ela saiu caminhando pela chuva como se a chuva pudesse esfriar a mente, o corpo e a alma. Ainda sentia o gosto do beijo dele e o sabor da dúvida se aquele teria sido o último, se um novo encontro aconteceria e até onde isso os levaria. Dúvidas à parte, como era bom ter aquela sensação mesmo correndo o risco de se machucar mais uma vez.

Anúncios


{09/03/2010}   Ele era apenas um menino

Ele era só um menino, um garoto de 18 anos no auge de sua virilidade e juventude. Era o primeiro emprego dele e, graças a sua simpatia, fez amizade rapidamente com todos. Ela  tinha uns sete ou oito anos a mais que ele e era casada. Logo tinha reparado nele, mas apenas achou que o que era bonito era para ser admirado, independente do estado civil de cada um.

Ele já tinha tido algumas namoradinhas, mas nada sério. Também logo a notou. Ela tinha se casado cedo, por opção, com o primeiro namorado. Sempre fora um relacionamento tumultuado e ela havia lutado com unhas e dentes pra se casar, daquelas histórias que viram mais questão de honra que amor propriamente dito. Tinham um tempo de casados, se desentendiam algumas vezes, mas pareciam felizes de um modo geral e acreditavam que tudo estava certo.

Foi num momento de certa crise que ela se apaixonou por aquele mocinho. Ele também se apaixonou por ela num piscar de olhos. Entre o bate-papo, o café na lanchonete, a ida ao outro andar, o beijo aconteceu. Ela não podia acreditar que aquele garoto, bem mais novo, mexesse tanto com ela. Mas depois do beijo teve certeza que aquele sentimento era mais forte e incontrolável do que ela podia imaginar.

Ela começou a ressaltar os defeitos do marido como uma forma de justificar aquela atração, mas no fundo ela sabia que estava se apaixonando perdidamente. O desejo foi crescendo. Os beijos nas escadas ou na casa das máquinas do elevador da empresa se tornaram cada vez mais frequentes, assim como as desculpas para trabalharem juntos em alguma atividade. Tudo isso apesar do medo de serem flagrados e consequentemente demitidos.

Ele só a queria pra ele. Com todo o idealismo e coragem propício da juventude se  julgava capaz de dizer pra ela largar tudo e ficar com ele, morar junto inclusive, como se fosse possível num passe de mágica. E por que não? Ela intimamente sabia que aquilo era um rompante da idade ou pelo menos tentava se convencer disso. Ela não tinha coragem de assumir pra todos que queria deixar o marido pra viver uma paixão com um garoto.

Começou a achar que era apenas um fetiche, uma fantasia, uma atração física e que com uma ida pra cama ao menos uma vez, tudo se resolveria. Arquitetaram um plano, disfarce, carro emprestado, motel afastado. Naquele momento, os dois pareciam adolescentes e não apenas ele. Era agora ou nunca e ela estava disposta a tudo.

O desejo estava à flor da pele para os dois. Tiveram o encontro mais quente e apaixonado de suas vidas. Embora jovem e teoricamente inexperiente, ele a fez se sentir a mulher mais desejada do mundo.O corpo dela tremia só de lembrar daquela primeira vez tão excitante. Aquele garoto se revelou como um homem que sabia como agradar  a uma mulher na cama.  Seu beijo era suave, suas mãos eram firmes.

Outros encontros aconteceram, cada dia melhores,  e eles tentaram levar aquela loucura adiante, mas ninguém consegue manter uma paixão em segredo por tanto tempo. Ela decidiu se separar independente daquela história. Ele se animou com a decisão. Ela realmente se separou, mas decidiu terminar com ele também. “Ele era só um menino”, ela pensava.

Os dois sofreram, como era de se esperar, mas superaram. Nunca mais se viram, nem se falaram. Tocaram suas vidas. Com certeza vão sempre se lembrar da história que viveram com alguma ternura e dor. Ele era só um menino e ela era só uma mulher que viveu uma grande paixão, mesmo que isso fosse difícil de explicar. Um dia contaria aos netos.



et cetera