O Arranhão da Gata











{01/09/2011}   Um quase amor

Para ler ouvindo Gimme Gimme Gimme, de Narada Michael Walden & Patti Austin ‘1985.

Quando ele veio morar na rua da casa dela devia ter uns 15 anos e já chegou chamando atenção. Ela, aos 13 anos, ainda estava acostumada a ver os meninos meio que como inimigos, mas com ele foi diferente. Talvez tenha sido o seu primeiro amigo do sexo oposto. Ele era comunicativo, o amigo de todo mundo, inclusive das meninas. E, além de tudo, era bonito: moreno, olhos negros e sorriso largo.

Não demorou muito para que todas as meninas da rua se apaixonassem por ele. Ela não sabia se aquilo era paixão, achava que não, mas gostava de estar na companhia dele. Ele começou a namorar uma garota da rua, que era um pouco mais velha. Ela não se incomodou muito com isso porque ficaram muito, muito amigos. Passavam horas conversando sobre o que queriam da vida, sobre o futuro, sobre música e inclusive sobre o amor. Aquilo era uma amizade de verdade, um quase amor, entre dois jovens.

Em alguns momentos ela achava que era mais que amizade, mas espantava esse pensamento porque afinal ele tinha namorada. Mas gostava de dançar com ele, de dar risada, de ficar ali deixando o tempo passar. Em cada uma das festinhas da turma, ela esperava pela sua vez de dançar com ele. Ele fazia questão de dançar não só com ela, mas com todas as garotas da festa, já que os outros garotos não tinham muita habilidade.

Um dia a família dele decidiu se mudar de cidade e num tempo em que não existia a internet, isso era mesmo uma notícia bombástica. Toda a turma ficou triste e ele também, mas não tinha outro jeito. O namoro dele acabou porque um namoro a distância naquela época era impossível.

Toda a turma organizou uma festa de despedida bem legal para celebrar a amizade. No dia da festa, ele pediu que ela ficasse até o fim para ajudá-lo a arrumar tudo e que ele a levaria em casa depois. Ela ficou. Ajudou a recolher os cartazes, os presentes. Tudo que ele levaria como lembranças daquele tempo e daquelas pessoas para a sua nova vida.

Na porta de casa trocaram um longo abraço e um selinho. Não foi um beijo de verdade, mas foi algo marcante.No dia seguinte ele viajou. Trocaram cartas por muitos anos, mas nunca mais se viram. Acabaram perdendo o contato com o passar do tempo e mudanças de endereços. Só ficou a lembrança daquela amizade ou quase amor.

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{24/07/2011}   Adeus, Amy!

Para ler ouvindo Tears Dry On Their Own, de Amy Winehouse.

Ontem fui surpreendida pela morte da cantora inglesa Amy Winehouse, da qual sou super fã. Embora fosse uma morte anunciada por conta de seus abusos de álcool e drogas, eu me surpreendi porque sou daquelas pessoas que acreditam que tudo pode melhorar sempre. Sinto muito mesmo que o vício tenha vencido um talento tão grandioso para compor e uma voz de diva.

Quando a gente começa a envelhecer tem o hábito de ser saudosista, ouvir sempre as músicas que foram nossos hinos da juventude e se fechar um pouco para as novidades. Eu tento vencer isso e estar aberta para conhecer o que há de novo.

Foi assim que ouvi Amy pela primeira vez e quando ouvi nem imaginei que ela fosse tão jovem. Comecei a pesquisar mais e incrivelmente a gostar de tudo. Passou a ser a trilha sonora do meu celular no trajeto para o trabalho e coincidiu com uma época de angústias e incertezas. Amy foi minha companheira nesse momento difícil. Suas letras retratavam profundos sentimentos e eu admiro quem consegue colocar os sentimentos em músicas, quadros, poesias ao invés de apenas lamentar.

A maioria das pessoas acredita que porque uma pessoa tenta sempre estar de bem com a vida e disposta a ajudar todo mundo e a ouvir, nunca tem problemas ou sofrimentos. Quem vê de fora acha que basta que você tenha um lugar para morar, um amor correspondido, certa saúde e um salário que venha todo mês (não estou dizendo que tudo isso seja pouco) para não ter motivos nenhum para sofrer. Eu sei que muita gente que me conhece nem percebeu essa fase de angústias, tristezas e insatisfação com aquilo que você não pode mudar ou não tem o controle.

Tem gente que vive assim com esse sentimento o tempo todo ao longo da vida e recorre aos vícios para suportá-los. Talvez esse tenha sido o caso de Amy. Por que não? Longe de mim defender o uso das drogas, mas consigo entender a profunda solidão interior que pode levar alguém a esse caminho. Eu sou a pessoa mais careta que eu mesma conheço. Mas tudo isso me faz pensar também que o álcool é uma droga liberada, acessível, que causa tanto mal ou mais que outras e me parece que pouca gente se preocupa com o seu abuso, principalmente quando se é bem jovem.

Mas, como já disse antes, quando a gente começa a envelhecer também aparece a consciência de que não vamos curar as dores do mundo. Aqui quero deixar minha homenagem para uma artista talentosa, que perdeu a batalha para o vício e que morreu cedo demais, aos 27 anos, sem julgar seus atos. Desejo que ela esteja bem melhor agora e que encontre a paz que por aqui não teve. Adeus, Amy! Suas músicas maravilhosas continuarão presentes na trilha sonora da minha vida.



{05/07/2011}   Amor clandestino

Para ler ouvindo Part Time Lover, de Stevie Wonder.

Amor clandestinoEm alguns dias ela não se perdoava por trair o marido. Em outros ela se sentia viva e feliz por viver aquele amor clandestino. Ele também era casado, mas não era do tipo que sentia culpa por trair a mulher. Fazia parte daquele grupo de homens que não nasceu para ser de uma mulher só. Uma amiga sempre dizia a ele que se tinha consciência disso, nunca deveria ter se casado, e muito menos mais de uma vez. Mas ele alegava que as coisas iam acontecendo e ele era do tipo que deixava sair do controle.

A verdade é que entre esses dois havia a sintonia perfeita. Quando estavam juntos não importava o mundo lá fora, seus pares oficiais, as convenções monogâmicas da sociedade. Só importava aquela possibilidade de ficarem juntos, mesmo que por pouco tempo, mesmo que escondido, o que inclusive tornava a relação ainda mais excitante. Tinham um pacto de segredo e respeitavam até certo ponto. Ele talvez nunca tenha contado mesmo a ninguém. Ela só havia contado a uma amiga.

Nessa relação não havia a expectativa de que se separassem para ficarem juntos. Se isso acontecesse, não daria certo. O que funcionava pra eles era justamente o amor proibido. Ela contava os dias para que o encontro fosse possível. Ele se arriscava mais. Aparecia de surpresa. Mandava mensagens picantes quando a saudade batia.

Na cama era perfeito. Com ele era possível se sentir mulher de verdade, despudorada e se entregar de uma forma que nunca havia feito com ninguém. Ela também era perfeita para ele porque sempre satisfazia suas vontades e embarcava nas suas fantasias loucas. Ele sabia dar prazer a ela e se sentia muito realizado por isso. Não era um homem egoísta preocupado só com o seu próprio prazer. Essa cumplicidade só tinham um com o outro e sabiam que era única.

Ela perdia a cabeça quando ele ligava com alguma proposta, quando queria saber que lingerie estava usando, que precisava dizer que o vinho já estava gelando, que havia comprado um “brinquedinho” novo e que precisava saber se ela o desejava tanto quanto ele a ela. É claro que sim.

Mas se alguém acha que era só sexo, não era. Eles realmente se amavam loucamente. Tão loucamente que era impossível terem um relacionamento tradicional. Tinham afinidades sobre o modo de pensar a vida e sobre o que queriam pro futuro.

Mas por que não chutavam tudo por alto e ficavam juntos? Nem eles mesmos conseguiam responder. Provavelmente porque não conseguiriam sair do papel de amantes perfeitos para o de casal mais ou menos ou medíocre e assim levaram a vida por muitos anos e com a sorte de ninguém descobrir.

Um dia acabou, mas não porque não se amavam mais e sim porque o destino os afastou. A separação foi física, mas no coração e na alma sempre levaram um ao outro como o amor mais perfeito que viveram. Sofreram com a distância, mas sabiam que era por um bem maior e que um ciclo havia se encerrado. Felizes os que entendem isso e guardam o que ficou de bom sem se lamentar.

O amor não tem regras, nem receitas. O que funciona pra um casal, não necessariamente funciona pra outro e convenções não valem mesmo para uma boa história de amor. Mesmo sendo clandestino ou errado aos olhos dos outros, o importante é viver de verdade tudo que a vida puder nos oferecer. Pena mesmo é desperdiçar energia pensando no que poderia ter sido por medo de enfrentar os próprios sentimentos.

E você, já viveu um amor clandestino ou proibido?  Quer me contar a sua história?



{12/06/2011}   Viva Santo Antônio!

Hoje aqui no Brasil comemoramos o dia dos namorados. Coincidência ou não, é a véspera do dia de Santo Antônio, conhecido como aquele que dá, digamos assim, uma ajudinha a quem está à procura de um par. Mesmo quem não é católico praticante acaba tendo algum tipo de devoção pelo santo casamenteiro.

A minha avó materna era devota de Santo Antônio e eu guardo até hoje a imagem que era dela. Mais que uma lembrança dela, eu realmente gosto muito dessa história de ajudar os casais a se encontrarem. Acho que porque eu também sou meio cupido e casamenteira.

Uma das histórias que deram essa fama ao santo é de uma moça que não tinha o dote para se casar e recorreu a ele. Das mãos da imagem teria caído um papel com um recado a um prestamista (pessoa que empresta dinheiro a juros) da cidade, pedindo-lhe que entregasse à moça as moedas de prata correspondentes ao peso do papel.

O prestamista obedeceu, afinal o papel era leve, mas quando colocou o papel num dos pratos da balança e as moedas no outro, os pratos só se equilibraram quando havia moedas suficiente para pagar o dote.

Outra versão – essa bem engraçada – diz que uma jovem depois de fazer uma novena e não encontrado um noivo, zangada, jogou a estátua de Santo Antônio que tinha em seu oratório pela janela. A estátua caiu na cabeça de um caixeiro-viajante que passava. Quando o homem gritou, a moça o socorreu. Ele se apaixonou por ela e se casaram.

Se você quer encontrar um amor e acredita em Santo Antônio, hoje é o dia de fazer algumas das tradicionais simpatias. Também é preciso ter uma imagem, mas não adianta comprá-la. É preciso que seja um presente. A minha sogra já presenteou algumas pessoas com a imagem e a maioria delas começou a namorar antes que o presente completasse um ano. Mas ela sempre reforça que é preciso ter fé!

Confira algumas simpatias:

1 – Há uma crença de que a pessoa deve tirar a criança do colo do santo (ô maldade!) e só devolver quando seu pedido for atendido. Mas não pode esquecer de devolver, senão a pessoa amada vai embora.

2 – Uma das mais antigas tradições diz que, para descobrir o futuro companheiro, é preciso escrever os nomes dos candidatos em vários papéis. Um deles deve ser deixado em branco. À meia-noite do dia 12 de junho, eles devem ser colocados em cima de um prato com água, que passará a madrugada ao relento. No dia seguinte, o que estiver mais aberto indicará o escolhido.

3 – Os que já estão acompanhados, mas ainda não subiram no altar, também possuem práticas específicas. A pessoa deve amarrar um fio de cabelo seu ao do namorado. Eles devem ser colocados aos pés do santo, que, logo, logo, resolve a questão.

4 – A tradição popular acredita que há uma forma especial de fazer as pazes entre casais brigados. Para isso, é preciso um cravo e uma rosa. Os talos devem ser amarrados juntos com uma fita verde, na qual serão dados 13 nós. Durante o procedimento, o devoto deve pensar que Santo Antônio vai uni-los outra vez.

5 – Alguma simpatias mais malvadas dizem para colocar a imagem de cabeça pra baixo num copo com água ou dentro do freezer e só tirá-la de lá quando conseguir um namorado.

Eu reitero aqui que sou totalmente contra as maldades com a imagem do santo!

Também vale dar uma passadinha na igreja nesse 13 de junho, fazer o pedido, acender uma vela e comer o delicioso pedaço do bolo de Santo Antônio. E para que nunca falte alimento, leve o tradicional “pão de Santo Antônio” para colocar nas vasilhas de guardar mantimentos. Afinal, o santo também cuida para que sempre haja prosperidade na família.

Boa sorte!



{10/05/2011}   As avós nunca morrem

Eu fui uma típica garotinha criada pela avó. Embora todo mundo ache que isso signifique excesso de mimo, ela me ensinou muito sobre disciplina e caráter. Está certo que ela coava o meu leite e até hoje eu não posso nem ver uma nata no copo, mas isso era só um agrado como ficar ao meu lado quando eu tinha medo antes de dormir ou fazer aquela comidinha que eu mais gostava. Essa era a minha avó materna, a vó Lidia, que morreu quando eu tinha 22 anos, no ano que eu me formei na faculdade. Senti muito por ela não estar aqui na formatura, mas tenho certeza que de algum outro plano ela estava vendo.

Nessa semana perdi a minha avó paterna, vó Djanira, já bem velhinha e debilitada. Por mais que a gente saiba que a morte é algo certo pra todo mundo, sempre que acontece com alguém próximo faz com que a gente se lembre de tudo que viveu com aquela pessoa. Ela morava no Rio de Janeiro e a gente não se via muito, mas dos 14 aos 20 anos eu passei todas as férias na casa dela. O que mais me lembro era do seu bom humor. Ela fazia todas as atividades domésticas cantando. Tinha sempre um rádio como companheiro. Isso era algo em comum nas minhas duas avós.

Também me lembro dela sentada na varanda nos contando as histórias da sua juventude, de como tinha sido enfrentar o preconceito de se casar com um português, sendo uma bela jovem negra. Eu adorava ouvir aquelas histórias todas. Também me admirava com a disposição dela. Nunca vi roupas tão brancas como as que ela lavava, nem tão bem passadas. Ela cortava cana dos pés que havia no fundo do quintal e fazia uma garapa fresquinha pra mim. Eu, que era totalmente urbana e criada em apartamento, adorava essas coisas de quintal, sucos – refrescos, com sotaque carioca, como ela dizia – feitos com frutas tiradas do pé minutos antes.

Um pouco antes de me casar, exatamente há 11 anos, fui visitá-la e contei que ia me casar, que não ia ser um casamento tradicional, que eu ia viajar e que estava muito feliz. Lembro que ela me disse: “minha neta, o que importa é que ele seja um bom marido para você e tenho certeza de que vai ser”. Ela acertou.

Eu tive que dar a notícia ao meu pai de que a mãe dele havia morrido. Isso foi muito triste porque mesmo aos 65 anos ele é um filho e um filho nunca está preparado para o dia da morte de sua mãe. Nós todos esperamos que ela esteja agora num plano melhor, sem sofrimento, sem dores, essas coisas todas que a gente deseja a quem a gente ama.

Agradeço por ter tido o carinho e amor das minhas duas avós. Acho que avós são mesmo anjos sem asas que estão aqui para nos proteger, fazer nossas vontades, dar colo e aliviar um pouco o trabalho das mães. Eu acredito que existe um céu das avós e lá elas continuam olhando pelos netos, mesmo os já crescidinhos como eu.



{01/05/2011}   Princesa, eu?

Para ler ouvindo Do Seu Lado, de Jota Quest.

Kate e William recém-casados

Toda mulher tem um pouco de princesa porque é romântica por natureza, com algumas exceções, é claro. Na minha geração toda garotinha conhecia as histórias dos contos de fadas como Cinderela, Branca de Neve e Bela Adormecida. E era inevitável sonhar com o príncipe e com aquele final de “felizes para sempre”. Claro que quando a gente cresce descobre que não é bem assim que a vida funciona e que é preciso adequar o nosso próprio conto de fadas à vida real. O importante é saber que se pode sim ser feliz.

O assunto mais comentado da semana passada foi, sem dúvida, o casamento do príncipe William com a plebeia Kate Middleton. Eu vi muitos amigos indignados nas mídias sociais criticando o fato de darem tanta importância a isso, de como a monarquia é obsoleta e ultrapassada e como nós brasileiros não tínhamos nada com o assunto. Mas, discussões políticas a parte, o meu foco ali era outro. Afinal quem é só um pouco romântico adora boas histórias de amor. E a deles é sim uma boa história de amor, da vida real, mas com glamour de conto de fadas.

Eu era só uma garotinha de 9 anos quando assisti pela televisão com a minha avó ao casamento da princesa Diana, mãe do William, com o príncipe Charles. Me lembro exatamente do dia, de acordar cedo, de ver a noiva linda com seu vestido, da carruagem. Só achei que o príncipe era meio feio, mas que depois do beijo ele poderia melhorar. Hoje em dia todos sabemos que aquele conto de fadas era de mentirinha porque ele não a amava e era só um acordo para que ele pudesse garantir o trono no futuro. Só esqueceram de avisar a ela. Mas naquele dia eu não sabia de nada disso e achei lindo aquele casamento de princesa. Foi inevitável me lembrar disso agora, 30 anos depois.

Acho que a Kate, além de linda, tem muito mais sorte que Diana pelo fato de, pelo menos ao que parece, o príncipe ser realmente apaixonado por ela e, independentemente da realeza, eles poderão ser felizes para sempre. Não sei se esse casamento mexeu com o imaginário das garotinhas de hoje em dia como em 1981. Eu comecei a achar um tempo atrás que a gente não devia mais chamar as garotinhas de princesa para não incentivar essa fantasia de príncipe encantado, mas eu mesma já me peguei fazendo isso com as afilhadas.

A verdade é que o que a gente precisa mesmo é continuar acreditando no amor. Não que exista príncipe de verdade pra todo mundo, mas o importante é achar o seu príncipe ideal. Ele só precisa te amar, ser companheiro, dividir a vida com você. Não precisa ser da realeza, nem rico, nem modelo de beleza, nem vir em carruagem, mas precisa te fazer feliz. Eu já vi princesas que ficaram felizes com outras princesas. E por que não? Toda forma de amor vale a pena.

Além disso, é preciso antes de tudo saber ser princesa pra si mesma, se aceitar, cuidar da vida, da saúde, da beleza, ter amigos, ser capaz de ser feliz sozinha para ter o coração aberto e aí sim encontrar um grande amor. Há quem diga que é impossível, mas eu acho que vale a pena tentar. Afinal o seu príncipe pode estar bem aí do seu lado.



{23/04/2011}   Reencontro de Páscoa

Para ler ouvindo “Os Outros”, do Kid Abelha.

Aquela era só mais uma Páscoa sozinha. Faltava só uma semana e ela pensava que não ter um amor era sempre ruim, mas nessas datas pesava ainda mais. Todos os amigos diziam que ela precisava sair, passear, ter mais amigos, conhecer gente nova e assim não se sentiria tão só. Ela até que tentava, mas sabia dentro de si que o pior não era não ter um novo amor, mas sim ainda não ter se esquecido dele.

Ele havia sido o grande amor da sua vida, mas não tinha dado certo poque eram imaturos e jovens. Ela era possessiva e ciumenta. Ele era daqueles que queria aproveitar a juventude. A combinação era explosiva. Já fazia mais de dez anos que não se viam. Ela tinha namorado outros, mas nunca se esquecia dele e talvez por isso nada de mais sério fosse pra frente.

Naquele dia havia ido comprar os ovos de Páscoa das sobrinhas. Era bom pensar nas crianças porque elas garantiam seus momentos de felicidade. A vida valia a pena quando estava com as pequenas. Andando pelo supermercado lotado sentiu o perfume dele e pensou que estava louca, imaginando coisas.

Mas não estava. Lá estava ele, também escolhendo chocolates, lindo, moreno e perfumado, como sempre. Suas pernas tremeram e o primeiro pensamento foi sair dali correndo, mas era tarde demais. Ele a viu, abriu aquele sorriso que ela nunca havia esquecido e caminhou em direção a ela. Se cumprimentaram com um longo abraço e palavras de “poxa, quanto tempo!’. Era como se todas as pessoas tivessem sumido do supermercado e só tivessem sobrado os dois ali parados.

Ele havia morado na Europa para estudar e estava de volta ao Brasil. Contou várias coisas, mas ela não ouvia nada preocupada com a possibilidade dele ouvir o quanto o coração dela batia alto. Trocaram celulares, msn, essas modernidades que não havia no tempo que namoravam. Antes de se despedir, ele perguntou se os ovos eram para os filhos e ela respondeu que não havia se casado. Ele disse que também não.

Aquela semana se arrastou. Ela não dormiu nenhuma noite, mas também não quis ser a primeira a ligar. O feriado chegou e logo cedo chegou a mensagem no celular “vamos fazer valer o nome sexta-feira da paixão?”. Ela pensou que era uma heresia confundir o significado da paixão naquele dia, mas claro que topou.

Ele foi buscá-la. Estava de bermuda jeans, camiseta branca, sorriso aberto e o perfume inesquecível. Lindo, como sempre. Ela perguntou pra onde iriam, mas ele não respondeu. Era surpresa. Ele havia reservado a suíte de um hotel em São Paulo mesmo. Afinal todos tinham viajado no feriado e cidade estava tranquila.

Passaram uma linda tarde juntos. O desejo era o mesmo. Nada havia mudado depois de tanto tempo. Como isso era possível? Ela ainda se sentia uma garota de 15 anos nos braços do primeiro amor. Com ele, ela se sentia mulher de verdade. Nenhum beijo havia substituído o dele. Era perfeito.

Ele perguntou se ela podia ficar até domingo com ele. Ela disse que sim, mas precisava estar no almoço de Páscoa com os pais e as sobrinhas. Não saíram do quarto até o domingo. Conversaram muito. Contaram a vida. E se amaram com toda a saudade reprimida por dez anos.

Na hora de se despedir, ela lamentou que não tivessem construído uma vida juntos. Ele não. Acreditava que nada era por acaso e que tudo tinha o momento certo. E aquele era o momento certo.Desde aquela Páscoa nunca mais ela passou nenhuma data especial sozinha. Não se separaram nunca mais e provaram que o tempo pode tudo curar e nos surpreender sempre.



{13/03/2011}   Meus 13 anos

Para ler ouvindo qualquer música que lembre a sua adolescência.

Ontem fui à festa de aniversário de 13 anos de uma pessoinha muito querida: Isabella. Mais que filha da minha amiga de longa data, ela é como uma sobrinha e afilhada do coração para mim. Foi a sua primeira “festa balada” com direito a DJ, decoração especial e presença dos amigos do colégio e do prédio. Com seu bom coração pisciano, ela liberou a presença dos tios e nós adoramos participar desse momento especial da vida dela. Foi inevitável me lembrar dela bebê, da festa de 1 aninho, da formatura do pré, do pingente com o dentinho de leite que ganhei e tantas outras datas.

Ao ver toda aquela garotada dançando feliz, compartilhando aquele momento de amizade, minha mente voou ao passado e me levou aos meus 13 anos. Também foi a minha primeira festa de aniversário “de mocinha”. Tudo que a gente queria naquela época era uma festa com os amigos e música pra dançar. A minha avó morava com a gente e ela não gostava de muvuca em casa. Por isso eu e minha mãe arquitetamos um plano infalível: a simulação de uma festa supresa. Os meus amigos chegariam de repente com a vitrola, discos e animação. Com isso, minha avó não ficaria brava com a bagunça. Afinal era o meu aniversário!

Era uma época de grana muito curta. Quem não viveu os anos da inflação não imagina como era. Se você não comprasse algo hoje, amanhã já custava bem mais caro. E isso valia pra tudo, menos para os salários, claro. Por conta disso, minha mãe ficou preocupada e disse que não daria para fazer uma super festa. Mas eu reforcei que a gente só queria ouvir música e dançar, que podia ter apenas cachorro-quente e groselha pro pessoal.

O sábado chegou e eu estava ansiosíssima pela minha festa. Minha mãe preparou os lanches na casa da nossa vizinha, uma catarinense super gente boa. Era época do new wave e lá estava eu vestida com uma blusinha verde-limão, que tinha uma manga amarela e outra laranja. Inesquecível isso! Às 19 horas meus amigos chegaram todos juntos conforme o combinado. Trouxeram a vitrola, os discos e até alguns presentinhos (eu havia dito que presente não precisava). Lá  fomos nós para o quarto da minha mãe onde seria o “bailinho”, como a gente chamava esses eventos.

Eu sou o tipo de pessoa que adora fazer aniversário, mesmo que uns dias antes eu fique chateada pelo tradicional balanço que fazemos da vida, quando chega o dia eu sempre fico feliz. Gosto muito de me lembrar dessa primeira festa da adolescência porque acho que foi nela que me dei conta do quanto eu gostava de estar com os meus amigos e celebrar a vida.

Apesar do improviso todo, minha festa foi um sucesso. Lembro que foi a primeira vez que dancei uma música lenta com um menino. Hoje isso é meio jurássico, mas havia uma seleção de lentas nas festinhas e esse era o momento dos meninos e meninas se aproximarem. O menino com quem eu dancei não era do colégio e sim da nossa turma da rua. Ele era tipo o gatinho da vez e todas as meninas gostavam dele, mas depois ele se mudou de cidade e perdemos o contato. Era um tempo sem redes sociais e mensageiros instantâneos, infelizmente.

Desse dia também me lembro dos amigos presentes. Com alguns deles, tenho contato até hoje e talvez eles também se lembrem dessa festinha. O prejuízo do dia foi o berço quebrado do meu irmão. Ele não tinha uma das laterais e os meninos, sempre eles, pensaram que era um sofá e se sentaram. Claro que o berço não aguentou o peso e foi pro chão. Por isso meu irmão ganhou o privilégio de dormir na cama da minha mãe até ter uma cama pra ele. Fato que ele adorou.

As músicas daquele dia também estão na minha lembrança e até por isso não separei uma em especial para ser a trilha desse post. Só para citar algumas: praticamente o disco todo do Thriller, de Michael Jackson; pelo menos Não se reprima e If you´re not here, do Menudo; Girls just wanna have fun, de Cindy Lauper e muito rock nacional da Blitz, Paralamas, Titãs e por aí vai. A lenta que dancei com o meu amigo foi Ebony Eyes, de Rick James e para terminar a festa era um clássico tocar Devotion, do Earth.

Estar na festa da Isabella me levou a essa viagem no tempo. Tudo que eu desejo é que quando ela fique mais velha se lembre dessa festa de 13 anos como um dia especial, assim como eu me lembro da minha. As boas lembranças fazem a vida valer a pena.



Para ler ouvindo Nada Mais, de Gal Costa.

Essa é uma discussão que vai longe, bem além da mesa do bar, do divã do analista ou do ombro amigo. Traição é um assunto que sempre gera polêmica. Há quem diga que não há perdão pra esse tipo de atitude. Há quem perdoe sempre para manter o status ou o padrão de vida e há quem consiga perdoar se for só uma vez e não houver reincidência. Mas será mesmo?

Eu acredito que a base de um relacionamento é a confiança e uma vez que se quebre, fica difícil conquistá-la novamente. Nada nessa vida é eterno e ninguém, absolutamente ninguém mesmo, está livre de se apaixonar por outra pessoa. Só que aí vem a parte da lealdade. Uma coisa é ser infiel e outra, que considero bem pior, é ser desleal.

O erro às vezes começa com aquela pessoa que se sente dona da outra, o que desfavorece qualquer diálogo. De qualquer forma, um erro não justifica o outro. Ser livre não é deixar de assumir compromissos, mas sim ser leal consigo mesmo e com os outros.

Se você está num relacionamento, mas de repente se apaixona por alguém é preciso ter coragem, muita coragem. Primeiro para admitir isso pra si mesmo. Depois para avaliar se vai em frente nesse novo amor ou se vai sublimar esse sentimento por causa de um outro maior.  A pior atitude é levar uma vida dupla eternamente. Em algum momento a coragem de se decidir se faz necessária. E se você se apaixonou por alguém que já era comprometido, não deixe isso se arrastar. Faz parte do amor tomar decisões para seguir em frente.

Conheci uma vez uma mulher casada que me disse que tinha um caso há oito anos. Como assim? Um caso não pode durar todo esse tempo. Isso já é uma vida dupla. Ela me explicou que o amante era seu lado B, que com ele fazia coisas que nunca faria com o marido, mas que se sentia feliz com os dois e não era possível largar nenhum deles. Aí eu me questiono: se sou muito careta ou as pessoas são loucas mesmo?

Nessa minha vida de boa ouvinte, sempre atraio quem queira me contar suas histórias (até as que eu preferia não saber). Tem aquele que trai por hábito. Já ouvi gente dizer que não nasceu pra relacionamentos monogâmicos, que não conseguia ficar com uma pessoa e deixar passar outras possibilidades.

Até acho válido, desde que a outra parte seja comunicada. Se você não serve pra ficar com um único parceiro, por favor, não se case. Divirta-se e deixe isso claro para as pessoas com quem se relacionar.Vai ser bom pra todo mundo.

Os tipos de pessoas que traem são dos mais variados. Um bem comum é aquele que diz que ama, que não quer se separar, mas que precisa variar de parceiro sexual. Se a pessoa nunca se satisfaz sexualmente, talvez aí seja o caso de procurar ajuda especializada.

Tem também o traidor despreparado. Aquele que deixa pistas para ser descoberto, não apaga as mensagens do celular, nega evidências, deixa o email aberto. Esconder não é uma coisa bonita, mas esconder direito demonstra que pelo menos você se importa com o sofrimento do outro, que não quer que ele descubra dessa forma. Claro que isso vale pra quem pretende abrir o jogo em algum momento.

Eu sempre tive a ideia de que ter um amante era algo para ser bom, divertido, apenas com bons momentos, mas também já conheci gente que consegue no relacionamento extraconjugal ter uma vida pior que a que tem no casamento. Isso não faz muito sentido. A pessoa tem um amante, que por sua vez tem outras amantes e aí vira uma guerra de ciúmes, brigas, sofrimentos. Parece meio incoerente cobrar fidelidade nesse tipo de relação.

Mas existe coerência no amor? E você, perdoaria uma traição?



{16/02/2011}   De Pernas pro Ar

Para ler ouvindo Wave, de Tom Jobim

Embora o filme já tenha batido recordes de bilheteria, se você é uma das poucas pessoas que ainda não viu De Pernas pro Ar, corra agora pro cinema. Não fui das primeiras a assistir. Fiquei interessada, achei a proposta divertida, mas fui adiando. Como é um daqueles filmes “de meninas”, combinei com uma amiga e lá fomos nós.

A protagonista Alice (Ingrid Guimarães) é uma executiva que só pensa em trabalho. Ao ficar desempregada e ao mesmo tempo ser surpreendida pelo pedido do marido para dar um tempo no casamento, Alice perde o rumo. Quem já não passou por essas fases na vida em que tudo dá errado de uma só vez?

No meio do caos, Alice fica mais próxima de sua divertida vizinha (Maria Paula), que é dona de um sex shop à beira da falência. Juntas começam a vender produtos eróticos em domicílio, o que torna um negócio um sucesso.

O filme é daquelas comédias bem engraçadas, que nos faz dar muitas risadas, mas que também tem um pouquinho de reflexão sobre a condição da mulher nos dias de hoje. Acho que pensar só em trabalho torna qualquer mulher desequilibrada e distante da vida pessoal. O equilíbrio é fundamental. No entanto, cada dia mais, os empregos exigem essa dedicação sem limite a ponto de mães só verem os filhos dormindo e perderem o que seria os melhores momentos da vida.

Claro que a personagem do filme é um pouco exagerada, mas eu mesma já conheci mulheres que se comportam daquela maneira. E pior ainda é quando acham que todas as outras também devem agir assim.

Outra reflexão boa que a história traz é a busca pela satisfação sexual, com a ajuda dos acessórios vendidos por Alice e sua sócia. A minha frase preferida do filme é do filho de Alice. Ao ser questionado pela mãe se não gosta mais do videogame portátil, o garoto diz que enjoou porque brincar sempre sozinho não tem graça.

E é verdade. Brinquedinhos sexuais podem ser muito divertidos, mas é sempre mais interessante se houver um parceiro na brincadeira. A conclusão é que por mais moderno que o mundo esteja e por mais que as mulheres sejam excelentes profissionais e independentes, todas continuam em busca da felicidade ao lado de um par que a compreenda. Afinal, roubo a frase do poeta: é impossível ser feliz sozinho.



et cetera