O Arranhão da Gata











{01/09/2011}   Um quase amor

Para ler ouvindo Gimme Gimme Gimme, de Narada Michael Walden & Patti Austin ‘1985.

Quando ele veio morar na rua da casa dela devia ter uns 15 anos e já chegou chamando atenção. Ela, aos 13 anos, ainda estava acostumada a ver os meninos meio que como inimigos, mas com ele foi diferente. Talvez tenha sido o seu primeiro amigo do sexo oposto. Ele era comunicativo, o amigo de todo mundo, inclusive das meninas. E, além de tudo, era bonito: moreno, olhos negros e sorriso largo.

Não demorou muito para que todas as meninas da rua se apaixonassem por ele. Ela não sabia se aquilo era paixão, achava que não, mas gostava de estar na companhia dele. Ele começou a namorar uma garota da rua, que era um pouco mais velha. Ela não se incomodou muito com isso porque ficaram muito, muito amigos. Passavam horas conversando sobre o que queriam da vida, sobre o futuro, sobre música e inclusive sobre o amor. Aquilo era uma amizade de verdade, um quase amor, entre dois jovens.

Em alguns momentos ela achava que era mais que amizade, mas espantava esse pensamento porque afinal ele tinha namorada. Mas gostava de dançar com ele, de dar risada, de ficar ali deixando o tempo passar. Em cada uma das festinhas da turma, ela esperava pela sua vez de dançar com ele. Ele fazia questão de dançar não só com ela, mas com todas as garotas da festa, já que os outros garotos não tinham muita habilidade.

Um dia a família dele decidiu se mudar de cidade e num tempo em que não existia a internet, isso era mesmo uma notícia bombástica. Toda a turma ficou triste e ele também, mas não tinha outro jeito. O namoro dele acabou porque um namoro a distância naquela época era impossível.

Toda a turma organizou uma festa de despedida bem legal para celebrar a amizade. No dia da festa, ele pediu que ela ficasse até o fim para ajudá-lo a arrumar tudo e que ele a levaria em casa depois. Ela ficou. Ajudou a recolher os cartazes, os presentes. Tudo que ele levaria como lembranças daquele tempo e daquelas pessoas para a sua nova vida.

Na porta de casa trocaram um longo abraço e um selinho. Não foi um beijo de verdade, mas foi algo marcante.No dia seguinte ele viajou. Trocaram cartas por muitos anos, mas nunca mais se viram. Acabaram perdendo o contato com o passar do tempo e mudanças de endereços. Só ficou a lembrança daquela amizade ou quase amor.

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{05/07/2011}   Amor clandestino

Para ler ouvindo Part Time Lover, de Stevie Wonder.

Amor clandestinoEm alguns dias ela não se perdoava por trair o marido. Em outros ela se sentia viva e feliz por viver aquele amor clandestino. Ele também era casado, mas não era do tipo que sentia culpa por trair a mulher. Fazia parte daquele grupo de homens que não nasceu para ser de uma mulher só. Uma amiga sempre dizia a ele que se tinha consciência disso, nunca deveria ter se casado, e muito menos mais de uma vez. Mas ele alegava que as coisas iam acontecendo e ele era do tipo que deixava sair do controle.

A verdade é que entre esses dois havia a sintonia perfeita. Quando estavam juntos não importava o mundo lá fora, seus pares oficiais, as convenções monogâmicas da sociedade. Só importava aquela possibilidade de ficarem juntos, mesmo que por pouco tempo, mesmo que escondido, o que inclusive tornava a relação ainda mais excitante. Tinham um pacto de segredo e respeitavam até certo ponto. Ele talvez nunca tenha contado mesmo a ninguém. Ela só havia contado a uma amiga.

Nessa relação não havia a expectativa de que se separassem para ficarem juntos. Se isso acontecesse, não daria certo. O que funcionava pra eles era justamente o amor proibido. Ela contava os dias para que o encontro fosse possível. Ele se arriscava mais. Aparecia de surpresa. Mandava mensagens picantes quando a saudade batia.

Na cama era perfeito. Com ele era possível se sentir mulher de verdade, despudorada e se entregar de uma forma que nunca havia feito com ninguém. Ela também era perfeita para ele porque sempre satisfazia suas vontades e embarcava nas suas fantasias loucas. Ele sabia dar prazer a ela e se sentia muito realizado por isso. Não era um homem egoísta preocupado só com o seu próprio prazer. Essa cumplicidade só tinham um com o outro e sabiam que era única.

Ela perdia a cabeça quando ele ligava com alguma proposta, quando queria saber que lingerie estava usando, que precisava dizer que o vinho já estava gelando, que havia comprado um “brinquedinho” novo e que precisava saber se ela o desejava tanto quanto ele a ela. É claro que sim.

Mas se alguém acha que era só sexo, não era. Eles realmente se amavam loucamente. Tão loucamente que era impossível terem um relacionamento tradicional. Tinham afinidades sobre o modo de pensar a vida e sobre o que queriam pro futuro.

Mas por que não chutavam tudo por alto e ficavam juntos? Nem eles mesmos conseguiam responder. Provavelmente porque não conseguiriam sair do papel de amantes perfeitos para o de casal mais ou menos ou medíocre e assim levaram a vida por muitos anos e com a sorte de ninguém descobrir.

Um dia acabou, mas não porque não se amavam mais e sim porque o destino os afastou. A separação foi física, mas no coração e na alma sempre levaram um ao outro como o amor mais perfeito que viveram. Sofreram com a distância, mas sabiam que era por um bem maior e que um ciclo havia se encerrado. Felizes os que entendem isso e guardam o que ficou de bom sem se lamentar.

O amor não tem regras, nem receitas. O que funciona pra um casal, não necessariamente funciona pra outro e convenções não valem mesmo para uma boa história de amor. Mesmo sendo clandestino ou errado aos olhos dos outros, o importante é viver de verdade tudo que a vida puder nos oferecer. Pena mesmo é desperdiçar energia pensando no que poderia ter sido por medo de enfrentar os próprios sentimentos.

E você, já viveu um amor clandestino ou proibido?  Quer me contar a sua história?



{23/04/2011}   Reencontro de Páscoa

Para ler ouvindo “Os Outros”, do Kid Abelha.

Aquela era só mais uma Páscoa sozinha. Faltava só uma semana e ela pensava que não ter um amor era sempre ruim, mas nessas datas pesava ainda mais. Todos os amigos diziam que ela precisava sair, passear, ter mais amigos, conhecer gente nova e assim não se sentiria tão só. Ela até que tentava, mas sabia dentro de si que o pior não era não ter um novo amor, mas sim ainda não ter se esquecido dele.

Ele havia sido o grande amor da sua vida, mas não tinha dado certo poque eram imaturos e jovens. Ela era possessiva e ciumenta. Ele era daqueles que queria aproveitar a juventude. A combinação era explosiva. Já fazia mais de dez anos que não se viam. Ela tinha namorado outros, mas nunca se esquecia dele e talvez por isso nada de mais sério fosse pra frente.

Naquele dia havia ido comprar os ovos de Páscoa das sobrinhas. Era bom pensar nas crianças porque elas garantiam seus momentos de felicidade. A vida valia a pena quando estava com as pequenas. Andando pelo supermercado lotado sentiu o perfume dele e pensou que estava louca, imaginando coisas.

Mas não estava. Lá estava ele, também escolhendo chocolates, lindo, moreno e perfumado, como sempre. Suas pernas tremeram e o primeiro pensamento foi sair dali correndo, mas era tarde demais. Ele a viu, abriu aquele sorriso que ela nunca havia esquecido e caminhou em direção a ela. Se cumprimentaram com um longo abraço e palavras de “poxa, quanto tempo!’. Era como se todas as pessoas tivessem sumido do supermercado e só tivessem sobrado os dois ali parados.

Ele havia morado na Europa para estudar e estava de volta ao Brasil. Contou várias coisas, mas ela não ouvia nada preocupada com a possibilidade dele ouvir o quanto o coração dela batia alto. Trocaram celulares, msn, essas modernidades que não havia no tempo que namoravam. Antes de se despedir, ele perguntou se os ovos eram para os filhos e ela respondeu que não havia se casado. Ele disse que também não.

Aquela semana se arrastou. Ela não dormiu nenhuma noite, mas também não quis ser a primeira a ligar. O feriado chegou e logo cedo chegou a mensagem no celular “vamos fazer valer o nome sexta-feira da paixão?”. Ela pensou que era uma heresia confundir o significado da paixão naquele dia, mas claro que topou.

Ele foi buscá-la. Estava de bermuda jeans, camiseta branca, sorriso aberto e o perfume inesquecível. Lindo, como sempre. Ela perguntou pra onde iriam, mas ele não respondeu. Era surpresa. Ele havia reservado a suíte de um hotel em São Paulo mesmo. Afinal todos tinham viajado no feriado e cidade estava tranquila.

Passaram uma linda tarde juntos. O desejo era o mesmo. Nada havia mudado depois de tanto tempo. Como isso era possível? Ela ainda se sentia uma garota de 15 anos nos braços do primeiro amor. Com ele, ela se sentia mulher de verdade. Nenhum beijo havia substituído o dele. Era perfeito.

Ele perguntou se ela podia ficar até domingo com ele. Ela disse que sim, mas precisava estar no almoço de Páscoa com os pais e as sobrinhas. Não saíram do quarto até o domingo. Conversaram muito. Contaram a vida. E se amaram com toda a saudade reprimida por dez anos.

Na hora de se despedir, ela lamentou que não tivessem construído uma vida juntos. Ele não. Acreditava que nada era por acaso e que tudo tinha o momento certo. E aquele era o momento certo.Desde aquela Páscoa nunca mais ela passou nenhuma data especial sozinha. Não se separaram nunca mais e provaram que o tempo pode tudo curar e nos surpreender sempre.



Para ler ouvindo Ponto de Mutação, do Cidade Negra.

Patagônia

Ela era uma garota sonhadora, moderna, responsável e fazia parte do grupo de mulheres que sonha em encontrar um par, mesmo sabendo que nenhum seria 100% perfeito (aqui um parênteses para perguntar: será que existe alguma  mulher que realmente não quer isso?).  Já tinha tido um namoro longo, daqueles que quase vira casamento, com direito a compras em comum, mas acabou.

Depois disso, ela mesma admitia que havia sido melhor assim porque nenhuma mulher deve mesmo se casar com o seu primeiro amor. Isso quase nunca dá certo, com raríssimas exceções.

Estar de bem com a vida era seu lema. Gostava de viajar, de fazer trilhas, de baladinhas para dançar e de estar sempre com os amigos. Também gostava de estar em família e era fã número um de seu pai. A vida de solteira era muito boa, mas ela continuava querendo encontrar alguém especial. Conheceu um cara bacana. Tinham algumas afinidades e engataram um namoro.

Durou pouco. Ele não teve muita sensibilidade para segurar a onda quando ela perdeu o pai e o relacionamento acabou. Perder o pai ou a mãe nunca é fácil pra ninguém, em nenhuma fase da vida, ainda mais para filhos únicos que não têm muito com quem dividir a tristeza nessa hora.

Foi difícil, mas ela superou mais uma vez. Cuidou de tudo que era necessário e quando a vida estava voltando ao ritmo normal conheceu um novo namorado. Ele era gente boa. Tinham a mesma profissão e ainda mais afinidades. Será que agora era “o cara”? Ainda não era. Foi um relacionamento de média duração, com muitas coisas boas, mas esfriou e virou amizade.

Os últimos dois anos foram tumultuados e ela estava em um daqueles momentos em que é preciso dar uma grande virada na vida.  Já estava ficando cansada de encontros e desencontros. Era final de ano e ela conseguiu uma semana de folga que incluía o réveillon. Perfeito. Precisava viajar, arejar a  mente e começar o novo ano com o pé direito.

Escolheu uma viagem para a Patagônia (na parte sul da Argentina e do Chile), bem rústica, com direito a caminhadas e a dormir em barracas de um acampamento. Os amigos não acreditaram. Parecia mesmo uma ideia maluca. Como assim viajar sozinha no ano novo, quando a maioria das pessoas quer estar rodeada de gente? Como assim ir para um lugar frio, sozinha? Mas ela não gostava mesmo de fazer o que todo mundo fazia, nem de seguir padrões. E lá foi ela para sua aventura.

Foi uma viagem maravilhosa. O lugar era fantástico. A maioria das pessoas do grupo também estava sozinha e um rapaz em especial era bem interessante. Conversaram muito e começaram ali o que prometia ser uma grande  amizade. Para sua surpresa, ele era da mesma cidade que ela e assim seria mais fácil manter contato.

O que era pra ser uma grande amizade virou um amor de novela. A vontade de ficar junto ficou cada vez maior e o relacionamento se tornou sério. Agora sim. Esse era “o cara”. Foi quando veio uma transferência de cidade no trabalho. Algo que ela mesma havia pedido meses antes de conhecê-lo. E agora? Queria muito ir, mas não queria deixá-lo.

Mais uma vez ele a surprendeu. Disse que ia junto, claro! Arranjaria um novo trabalho lá e que estava tudo certo. Dessa conversa para marcarem o casamento foi um passo. Foi uma festa linda, com direito a véu, grinalda, valsa, família e amigos reunidos. O tempo passou e eles estão juntos, felizes, com um casal de filhos fofos. E como diz aquela música do Legião Urbana, “a nossa amizade dá saudades no verão…”.



{06/09/2010}   Último encontro

Para ler ouvindo Bem que se quis, de Marisa Monte.

Aquele encontro numa manhã de quinta-feira seria o último, mas eles não haviam planejado isso. Não teve tom de despedida, mas o destino se encarregou de dar um novo rumo para a vida de ambos, de modo que tudo acabasse, sem muitas explicações, como acontece quando se acorda de um sonho bom.

Para ela, ele era o amor da vida toda, entre muitos encontros e desencontros, intervalos, outros amores. Ela era pra ele a mulher ideal, mas inalcançável. Não conseguiam ter um relacionamento normal, apesar do sentimento recíproco. Só dava certo quando era proibido e quando deixava de ser, não dava mais.

Naquela manhã quente de novembro marcaram um encontro num hotel. Encontro esse que vinha sendo apimentado pela dificuldade de se concretizar. Trocavam mensagens sobre a expectativa que o dia possível chegasse com insinuações provocantes. Alimentar tudo isso era ainda mais excitante que o dia em si.

Finalmente a agenda bateu. Tinha de ser cedo. Depois cada um iria para o seu trabalho. Ele chegou primeiro, escolheu o quarto, pegou as chaves e esperou por ela. Os dois tinham muita afinidade e a química na cama era perfeita. Ele já tinha tido muitas mulheres, mas com ela era fantástico. Um sabia exatamente como agradar ao outro sem que fosse preciso dizer nada.

Ela chegou meia hora depois. Óculos escuros, passos rápidos. Deixou o documento, subiu as escadas, abriu a porta já destrancada. Reclamou do calor e ele brincou dizendo que ainda gostava dela mesmo assim suada. Se beijaram demoradamente e era sempre como a primeira vez. Ela dizia que ele tinha o beijo certo, o número dela.

Por mais pressa que tivessem, se amaram devagar. Ela intercalava as carícias com pequenas declarações de amor. Ele sentia prazer em perceber o prazer que dava a ela. Talvez se soubessem que seria o último encontro, tivessem dito mais coisas um ao outro. Mas como não sabiam, se concentraram em aproveitar o momento da melhor forma.

Como costuma acontecer a todos os casais apaixonados, o tempo passou rápido. Ainda deu tempo para um banho juntos. Nessa hora bateu uma tristeza. A tristeza do desencontro de não poderem estar juntos o tempo que quisessem. Muita coisa não dependia só da vontade. Só em amor de novela tudo é possível, mas ali era a vida real.

Ela foi embora antes. Ele ainda ficou por lá relembrando cada momento. Ele já vinha pensando, mas não tinha decidido. Por isso não tinha dito a ela que não se veriam mais. Mas era melhor assim, sem despedidas. Chorou sozinho. No caminho, ainda deu um telefonema para dizer que tinha tido uma manhã maravilhosa, inesquecível. Ela disse que pra ela também havia sido. Desligaram.

Depois disso não se encontraram mais. Ele sempre vinha com a desculpa de que não dava por causa do horário de trabalho. Como algumas coisas na vida não precisam ser ditas explicitamente, ela acabou entendendo que era melhor assim. De tudo que viveram, ficou a saudade.



{16/08/2010}   Encontros e Desencontros

Para ler ouvindo Pra ser Amor, de Ricky Vallen.

Eles se conheciam desde a adolescência, mas ficaram muitos anos sem se ver. Quando estudavam juntos eram só colegas de classe. Naquela época ele preferia as meninas mais velhas e ela tinha namorado outros garotos da escola, mas não ele. Por isso ela nem imaginava que pudesse um dia se apaixonar por ele.

Foi numa dessas reuniões de amigos que não se veem há muito tempo que eles se reencontraram. De cara rolou uma grande afinidade e muita  conversa. Trocaram telefones, msn, email e não pararam mais de se falar.

Ela morava em outra cidade e por isso o contato era mais virtual, mas isso não impediu que a paixão crescesse, que os poucos encontros fossem intensos e que a cada dia aquilo fosse se transformando em amor. Ele também parecia envolvido. Pelo menos era o que ela sentia cada vez que estavam juntos. Ele era sempre carinhoso, gentil e sedutor.

É possível se envolver e amar muitas e diferentes vezes na vida, mas sempre tem um em especial que você sabe que é o par perfeito. Ela já havia tido outros relacionamentos sérios ao longo da vida. Não era uma garota inexperiente e sabia o que queria.

Ela sentia que ele era o seu par perfeito. O termômetro era o beijo. Claro que tinham também muita sintonia na cama, entre outras afinidades, mas o beijo era a medida daquela paixão. Seu coração dizia que aquele era “o cara”.

Foi por causa dessa certeza que ela pediu transferência no trabalho e foi morar na mesma cidade que ele. Não só para ficar mais perto, mas para viver aquilo de verdade, para que a história pudesse deslanchar.  Como no amor nada é certo e previsível, o que deveria virar um grande amor começou a dar os primeiros sinais de decepção.

Começou com ausências, celulares não atendidos e algumas mentiras descobertas até que o dia que ele anunciou que ia se casar. Como assim se casar de uma hora pra outra? Havia uma namorada? Desde quando? Quem? Muitas dúvidas respondidas apenas com um “resolvi dar uma chance porque é alguém que gosta de mim há muito tempo, que sempre me amou” como se os casamentos fossem feitos de sentimentos unilaterais.

Ela não acreditou. Acho que era um blefe. Aproveitou pra dizer tudo o que sentia, inclusive o que tinha deixado pra trás por causa dele: outro relacionamento, trabalho, amigos. Mas ele não se abalou e disse que pensou que a história deles era só sexo, que eles se curtiam e só. Que agora era tarde.

Não teve jeito. Ele se casou. Ela sofreu, mas foi tocando a vida pra frente. Tentou se esquecer, se envolver novamente com alguém, mas aquele sentimento por ele vinha sempre à tona. Sentia saudades.

O casamento dele durou um ano, bastante até para quem tinha se casado só porque a outra parte o amava. Claro que quando o casamento acabou, ele a procurou. Todas as teorias dizem que o correto era não atender, não falar com ele depois de tudo, muito menos ceder às investidas. Mas o amor não é feito de teorias. Na prática, o sentimento e o desejo sempre falam mais alto.

E lá foi ela ao encontro dele, cheia de expectativas e com aquela sensação de que agora daria certo. Foram alguns meses de felicidade. Se viam com frequência, passavam as noites juntos, mas nunca parecia algo assumido. E ela o amava mais e mais.

Ele não estava pronto pra uma mulher como ela. Era madura, linda, independente, excelente profissional. Talvez fosse muito pra ele, embora isso não tivesse importância pra ela. Ela verdadeiramente o amava. Só que ele definitivamente não percebia isso ou preferia fazer de conta que não percebia.

Do nada, de novo, apareceu com uma namorada oficial. Agora, segundo ele, era o amor da vida, a que ele tinha escolhido para amar. Não, com certeza ele nunca havia amado ninguém. Só podia ser de novo uma fuga.

Mais uma vez ela sofreu, chorou, desesperou, mas acabou. Não acabou o amor, mas acabou a história porque afinal já era uma reincidência. Ela não se arrependia. Havia arriscado tudo, mas era assim mesmo que devia ser quando se ama. Ele perdera a chance de ser feliz por não se arriscar. Talvez nunca aprendesse isso ou precisaria de muito mais encontros e desencontros, quem sabe.



Para ler ouvindo Exagerado, do Cazuza.

Era uma linda história de amor. Não teve um final feliz, mas era pra ser uma linda história de amor. Ou, melhor, simplesmente não teve um final. Ela foi interrompida pelo destino ou por aquela velha premissa de amar sem ser amado. Parecia novela do Manoel Carlos. De repente, aquele seu primeiro amor resolve se apaixonar pela sua melhor amiga. Isso não seria o pior se a sua amiga não resolvesse achar que era uma boa ideia.

Bom, mas isso era o final e não o começo. O começo sim é o que interessa. Foi numa festinha bem comum nos anos 80. Todo mundo reunido na casa de um amigo, música na vitrola – sim, era vitrola – e nem precisava ter muita comida ou bebida. O importante era estar junto pra dançar. Apenas isso realmente era diversão naquela época.

Ela tinha uns 14 anos. Ele também. Ela estava naquela escola desde criancinha. Ele tinha acabado de entrar.  Ela só tinha trocado um beijo “de selinho”. Ele já havia aprendido a beijar com toda certeza. Foi naquele dia, na “seleção de músicas lentas” – sim, nas festas havia um momento só pra dançar juntinho e isso era legal –  que ela o notou pela primeira vez.

Talvez por ser novo e querer se enturmar ou simplesmente por nenhum motivo, ele a tirou pra dançar. E foi ali, naquele momento, que a mágica aconteceu. Ela sentiu o rosto dele no seu, o perfume dele e um calor próprio da idade e do medo do novo. Nunca havia sentido aquilo antes. Não foi naquele dia que eles se beijaram, mas ela se apaixonou e ele passou a ser um bom motivo pra não faltar à escola, nem mesmo se ficasse doente.

Ela era romântica por natureza e decidiu se declarar com uma cartinha. Pode parecer ridículo, mas naquele momento fazia sentido. Ele era um garoto. Garotos não pensam nisso tão cedo. Apenas achou legal. O primeiro beijo aconteceu uns três meses depois daquela dança na festinha. Foi no cinema num sábado frio de junho.

Ela queria namorar, dizer pra todo mundo. Ele não. Mas a história não acabou ali porque ela ainda não sabia terminar alguma coisa antes mesmo de ter começado direito. Embora ele não quisesse um compromisso, praticamente ficavam juntos  todo sábado. Era um tipo de ficante fixo, como se diz atualmente. 

O impulso da adolescência é aliado da total inconsequencia. Namoravam na escada do prédio dela ou na casa dele quando os pais não estavam. Não precisou de muito tempo para que a intimidade crescesse entre eles. Típico da idade. Estavam se descobrindo como homem e mulher. Eram os primeiros toques, as primeiras sensações de prazer. E ela o amava com toda a intensidade que um adolescente ama.

Mas como quase todas as meninas da sua geração, ela tinha medo de transar, de engravidar, de todo mundo saber e, afinal de contas, ele nem era seu namorado oficial. Durante dois anos o relacionamento foi assim. Ela sonhando com ele, com o momento certo para transar, desejando que ele a quisesse pra ele e também quisesse ser só dela.

Finalmente ela decidiu que ia transar com ele porque mesmo que não ficassem juntos depois, aquele amor todo que ela sentia merecia ser completo. Ela estava pronta, mas foi nesse momento que veio a bomba: ele resolveu se declarar apaixonado para a melhor amiga dela. Como assim?

A amiga a criticava sempre por ter aquele tipo de relacionamento, mas, para grande surpresa de todo mundo, quis ficar com ele. Talvez por gostar da ideia de ser desejada por todos, talvez por não se importar com a amiga, talvez pra se divertir ou para massagear o ego, talvez para mais tarde realmente acabar gostando dele.

Como tudo é mesmo muito desenfreado na adolescência, ela derramou muitas lágrimas. Sofreu, mas aceitou os fatos. Talvez para não perder a amiga, talvez para continuar perto dele, talvez porque não sabia ainda cortar relações que mereciam ser cortadas.

Esquecer não foi fácil. Mesmo já tendo namorado outro e transado sem o glamour do primeiro amor, ela ainda sentia saudades daquela história. Os dois tinham relacionamentos do tipo ioiô – aqueles que ficam num vai e volta sem fim. Foi em um desses intervalos em que estavam sozinhos que se reencontraram. Combinaram um jantar para relembrar os velhos tempos.

Naquele dia conversaram, choraram juntos, resgataram a intimidade e finalmente tiveram uma noite de amor. Talvez tenha sido boa a sensação de realizar algo tão esperado, mas ela sabia que aquele era mesmo o ponto final.

Ela nunca contou a ninguém. Havia enfim aprendido que guardar segredos, principalmente sobre si mesma, era fundamental no mundo dos adultos. Levou alguns meses se lembrando daquela noite,  sentindo seu perfume, rememorando suas palavras, mas um dia passou.

Nunca mais tocaram no assunto. Ele voltou para a namorada, se casou, teve filhos, se separou, voltou, se separou de novo… Enfim, viveu suas histórias de amor.  Ela também viveu outras histórias. Amou e foi amada. E a vida seguiu,  assim como devia ser.



Para ler ouvindo Change the World, de Eric Clapton.

Às vezes é preciso atravessar o oceano para encontrar o amor da sua vida. Normalmente isso acontece quando você não está nem pensando nisso. E com ela foi exatamente assim. Estava em Londres para estudar e nem cogitava a ideia de engatar um relacionamento sério com um estrangeiro, já que, com a sua volta ao Brasil no final do curso, teria data pra terminar.

Em Londres fez muitos amigos de várias nacionalidades e, como a vida de estudante num país estrangeiro não é só estudar, saíam com frequencia. Foi em um pub que estavam para assistir a um jogo do Brasil que se  conheceram. Ele era da Nova Zelândia e também estava lá para estudar.

Conversaram bastante – em inglês, que era o idioma em comum para os dois -, se encontraram outras vezes e mesmo que o mais prudente fosse não se envolver, não teve jeito. Se apaixonaram. Aí começou a série de pensamentos estratégicos para levarem o amor adiante. Afinal entre o Brasil e a Nova Zelândia havia uma distância considerável.

Quando duas pessoas se amam de verdade, nada é impossível. Mesmo a distância. Na época não havia ainda todas as facilidades de comunicação como hoje. Era o bom e velho email e alguns telefonemas quando a saudade ficava insuportável.

Ele decidiu vir ao Brasil. Conheceu a família dela, os amigos, aprendeu um pouco de português. O visto tinha duração de 8 meses e ele tinha de voltar. Durante esse período o amor se fortaleceu e viram que não havia mais como ficarem separados.

Decidiram então se casar, mas isso precisava de planejamento e mais algum tempo longe. O amor resistiria? Resistiu! Ele voltou ao Brasil, regularizou a documentação, conseguiu um trabalho e marcaram o casamento.

Nesse dia 30 de junho eles completam 9 anos de casados. No dia do casamento estava frio, na serra da Cantareira, mas tinha um sol aconchegante. Todos os amigos e familiares estavam presentes, inclusive os da Nova Zelândia. A celebração foi em inglês e em português para que todos entendessem. Foi lindo de presenciar.

Eles moraram um tempo no Brasil. Hoje vivem na Nova Zelândia e (plagiando Renato Russo) a nossa amizade dá saudades no verão. Uma história de amor que atravessou o oceano e uniu continentes.



Tudo começou com a insistência dele. Muita insistência. Era um galanteador por natureza. Já ela estava mais focada em estudar e não dava muita atenção para as investidas dele. Ao menos, não no início.

Um conquistador era a palavra que melhor o definia. Todos os dias ele a elogiava, notava a roupa, as mudanças no cabelo, escrevia seu telefone na agenda dela com um lembrete para ligar, mas ela resistia. Tinha acabado de sair de um relacionamento conturbado e tinha jurado a si mesma, como toda mulher jura, que não entraria em outra roubada. Como se fosse possível evitar isso assim, apenas com essa resolução.

Se tornaram amigos, conversavam todos os dias sobre tudo e aos poucos ela foi cedendo aos encantos dele. Um dia o professor faltou. A classe toda resolveu ir ao cinema e lá ele conseguiu roubar um beijo. Foi naquele dia que ela começou a pensar nele com mais frequência e na possibilidade de baixar a guarda.

Saíram de novo para um cinema na semana seguinte. Dessa vez sozinhos. Trocaram mais que um beijo e conversaram sobre o passado, sobre o que estavam sentindo um pelo outro. Ali começou uma grande paixão.

As paixões costumam ter prazo de validade definido. Dizem que duram no máximo dois ou três anos. Mas quando começa a gente sempre aposta que vai virar amor. Apesar de toda a precaução inicial, foi isso que ela fez.  Apostou.

Eles não se largavam. Se viam todos os dias. Estudavam juntos.  Aproveitavam cada momento e não viam a hora de ficarem sozinhos. Ela ainda estava insegura quanto a ir pra cama com ele, apesar da vontade. Como é comum na juventude, não se importavam muito com a intensidade dos amassos em público, mas claro que queriam mais privacidade.

A decisão veio no terraço de um prédio.  Do alto se via a Av. 23 de maio repleta de carros, mas o barulho das buzinas nem chegava aos ouvidos deles, que estavam enlouquecidos de desejo. Entre muitos beijos, abraços e mãos inquietas , ele disse que não parava de pensar nela, que não aguentava esperar mais.

Ela estava louca, louca por ele, mas não ia transar ali no terraço do prédio. Tinha de ser especial.  No dia seguinte.  Decidido! Seria no dia seguinte. Era uma sexta e não teriam hora pra voltar.

Se encontraram no horário de sempre. Andaram rápido, entraram  discretamente no prédio.  Chaves na mão, subiram as escadas apressados. Ela estava com o coração aos pulos, quase saindo pela boca. Ele disfarçava a ansiedade se fazendo de homem experiente, forte e decidido no auge dos seus 21 anos.

Chegaram ao quarto. Apesar de bem jovens, os dois já tinham tido outras experiências, outros relacionamentos, mas isso não tornou aquele momento menos especial. Ele a fez se sentir a mulher mais desejada do mundo. Não teve pressa. Abusou dos elogios e palavras ao pé do ouvido.

Ela controlou o nervosismo e foi a mulher mais doce e carinhosa que ele já tinha estado. Descobriram que na cama combinavam ainda mais. Ela dormiu no calor dos braços dele e acordou com aquela sensação de felicidade que só quem já sentiu sabe como é.

Depois daquela, ainda passaram muitas noites juntos, viajaram, namoraram, se divertiram. Mas como é comum nas paixões que não viram amor, um dia acabou. Antes pra ele que pra ela. Ela sofreu, chorou, jurou, de novo, não se apaixonar nunca mais.

Claro que depois do “luto” emocional ela se apaixonou outras vezes. Ele também. E quando a dor passou, sobraram as lembranças daquela paixão juvenil, os bons momentos, a nostalgia e a conclusão de que nada na vida é em vão e que toda paixão vale a pena.

Para ler ouvindo Woman in Chains, do Tear for Fears.



{24/05/2010}   O último romântico

“Ela é só uma menina e eu deixando que ela faça o que bem quiser de mim”.  A frase da música Romance Ideal, do Paralamas do Sucesso, era a essência daquela relação. Quando se conheceram, ela tinha 15 anos e ele 21. Não era muita diferença de idade, mas nessa fase da vida, ela era mesmo só uma menina perto de um cara maior de idade e que já tinha vivido outros relacionamentos.

Na teoria seria muito mais fácil pra ele, mas não era bem assim. Ele se apaixonou perdidamente. Tinha alguma dificuldade em compreendê-la, mas relevava por conta da idade. Quando ela amadurecesse, a relação amadureceria também e eles falariam a mesma língua. Era só uma questão de tempo e paciência.

Eles se viam apenas nos finais de semana. Ela gostava bastante dele, mas talvez não com a mesma intensidade que ele gostava dela. Era bacana ser amada por ele. Para ela havia aquela dúvida própria da idade: transar ou não transar? Tinham seus momentos íntimos quando era possível, quando ficavam sozinhos, mas não chegavam a transar. Em algumas vezes por medo ou indecisão dela. Em outras, por prudência dele.

Mas ele a amava cada dia mais e isso fazia ser possível esperar. Havia insegurança por parte dela, havia algumas coisas nele que ela gostaria que fossem diferentes. Por parte dele havia o medo de se precipitar porque afinal ela era só uma menina. Ele tinha muito medo de forçar a barra, insistir e perdê-la.

Assim foram levando o relacionamento por um tempo. Ele cada vez mais envolvido. Gostava dela, da família dela, de estar com ela. Embora muitos dissessem que não entendiam. Por que ele não ia namorar alguém da idade dele ou pelo menos maior de idade? Pra que esperar por alguém que ainda era virgem? Por que ficar com essa carga e responsabilidade? Mas ele não pensava assim. Era um amor maior que ele. Respirava por ela. Todas as músicas lembravam ela. Contava os dias para o final de semana chegar logo.

Um dia um furacão passou por cima desse amor. Ela se encantou por outro. Ele não acreditou. Achou que não era possível. Insistiu. Ela ficou sem saber o que fazer. Não desgostava dele, mas agora havia alguém. Outro alguém.

Mesmo com toda a confusão bem comum na cabeça de uma adolescente, ela achava que pelo menos a primeira vez devia ser com ele. Afinal tinham vivido tanta coisa juntos. Decidiu que ia transar com ele, que não ia esperar mais. Ele entendeu isso como uma escolha, como se o outro não fosse mais uma ameaça.

Tiveram uma linda noite de amor num sábado de inverno. Mas pra ela foi um ponto final. Como fechar um livro e começar outro. Ele sofreu, chorou, se desesperou. Esperou que passasse porque com o outro devia ser só uma empolgação.  Mas não foi assim.

O tempo passou. Ela não voltou pra ele e ele não a esqueceu.  Alguns anos depois, ele soube por uma amiga em comum que ela estava grávida e que ia se casar. Derramou lágrimas silenciosas na frente da amiga.  Seu amor não era mais uma menina, ia se casar, ia ter um filho e não era com ele. Vivera um grande amor, mas só sobrou a história pra contar!

Para ler ouvindo O Último Romântico, de Lulu Santos.



et cetera